Portugal deu esta semana um passo concreto na sua estratégia climática: o primeiro projeto de florestação foi registado e validado na plataforma do Mercado Voluntário de Carbono (MVC). Fica no concelho do Sabugal, distrito da Guarda, ocupa 18,83 hectares e vai sequestrar 2.976 toneladas de CO₂ equivalente ao longo de 40 anos. É o tiro de partida de um mecanismo que o Governo desenhou para canalizar investimento privado para a captura de carbono, a reflorestação e o desenvolvimento rural — três problemas fundidos num só.
O projeto Charneca e Ferreirinhos é promovido pelo Grupo Sylvestris, uma empresa Espanhola de engenharia natural fundada em 2013 por dois engenheiros florestais, em parceria com a Fundação Repsol, através da iniciativa Motor Verde +Floresta. A fase de implementação — plantação, estabilização do solo, instalação — já terminou em 2025. O que muda agora é o enquadramento legal: com o registo na plataforma MVC, o projeto passa a poder gerar créditos de carbono transacionáveis, sujeitos a verificação independente e monitorização contínua.
O projeto Charneca e Ferreirinhos assenta em espécies autóctones como Pinus pinaster (pino-bravo) e Quercus pyrenaica (carvalho-negral)
Como funciona o Mercado Voluntário de Carbono
O MVC foi criado pelo Decreto-Lei n.º 4/2024, de 5 de janeiro, e é gerido pela ADENE — Agência para a Energia. Funciona assim: promotores de projetos (como florestação, reflorestação ou soluções tecnológicas) registam as suas iniciativas na plataforma eletrónica mvcarbono.pt. Cada projeto segue uma metodologia de carbono aprovada — neste caso, a MVC1 (Novas Florestações) — que define como calcular, monitorizar e verificar as toneladas de CO₂ efetivamente sequestradas.
Por cada tonelada de CO₂ equivalente reduzida ou sequestrada, é emitido um crédito de carbono. Estes créditos podem ser adquiridos por empresas ou cidadãos para compensar as suas emissões — ou simplesmente como contribuição para a ação climática. Quando comprados e utilizados, são cancelados na plataforma, saindo de circulação. O sistema português distingue-se por incluir uma bolsa de garantia (20% dos créditos ficam retidos para cobrir reversões), auditores independentes qualificados e a possibilidade de atribuir o selo "Crédito de Carbono +" a projetos com benefícios extra de biodiversidade.
O ciclo do mercado voluntário de carbono português: da florestação à compensação de emissões, com verificação em cada etapa
2.976 toneladas de CO₂ em quatro décadas
O projeto do Sabugal ocupa 18,83 hectares divididos entre as localidades de Charneca e Ferreirinhos. As espécies escolhidas foram o Pinus pinaster (pino-bravo) e o Quercus pyrenaica (carvalho-negral), ambas autóctones e bem adaptadas ao solo e clima da região. A estimativa ex ante — calculada com a metodologia MVC1 — aponta para 2.976 toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ao longo de 40 anos, o que dá uma média de 158 toneladas por hectare. Um valor prudente, segundo os promotores, que seguiram critérios de "exigência e rigor técnico especialmente elevados".
A operação em Sabugal reforça uma ideia-chave do projeto Motor Verde +Floresta: o restauro florestal não se limita ao carbono. Também atua sobre a biodiversidade, o solo, a água, a paisagem e a resiliência territorial, ao mesmo tempo que pode gerar atividade e oportunidades em zonas rurais.
— Grupo Sylvestris, comunicado oficial
A permanência das remoções de carbono é garantida por um compromisso contratual de 40 anos e pela adesão à bolsa de garantia do MVC. Isto significa que, se por qualquer razão (incêndio, praga, abate) o carbono armazenado for libertado, o promotor é obrigado a repor o dobro dos créditos perdidos — um mecanismo de segurança que evita o greenwashing e dá credibilidade ao mercado.
As novas manchas florestais no Sabugal protegem o solo da erosão e reduzem o risco de incêndios numa zona considerada vulnerável
Um mercado que arranca devagar mas com ambição
O MVC português está operacional desde outubro de 2024, quando foram publicadas as portarias que regulamentam taxas, qualificações de verificadores e requisitos da plataforma. Mas o primeiro projeto só agora foi registado — o que mostra que a máquina ainda está a ganhar velocidade. Segundo o Governo, dos 108 projetos propostos, apenas 9 eram diretamente enquadráveis na metodologia MVC1 — os restantes aguardam o desenvolvimento de novas metodologias, como a de reflorestação de áreas ardidas e gestão florestal melhorada. Outros 12 projetos poderão ser adaptados à metodologia atual. O número mostra que o mercado ainda está a encontrar o seu ritmo.
Portugal comprometeu-se a atingir a neutralidade carbónica em 2045 e prevê 75 mil milhões de euros de investimento em energia verde até 2030. O mercado voluntário de carbono é uma peça desse puzzle — não a maior, mas talvez a mais inovadora: pela primeira vez, empresas e cidadãos podem compensar emissões com projetos florestais nacionais, com regras claras, verificação independente e benefícios diretos para o território.
Feito por humanos — Portugal Binário
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