Ilustração científica de nanopartícula lipídica revestida a açúcar (manose) a atravessar a barreira hematoencefálica e a acumular-se num tumor de glioblastoma no cérebro. Crédito: Parinaz Ghanbari / Oregon State University
🏥 Saúde

Nanopartículas revestidas a açúcar ultrapassam barreira que sempre travou os tratamentos — e aumentam sobrevivência do cancro cerebral mais mortal em 50%

O glioblastoma é o cancro cerebral mais agressivo que existe. Com uma taxa de sobrevivência a cinco anos inferior a 5% e uma mediana de sobrevivência de apenas 14 meses, este tumor cerebral primário resiste a cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Agora, uma equipa de investigadores da Oregon State University (OSU) pode ter encontrado uma forma de o atacar onde ele mais precisa: dentro do cérebro, usando o próprio açúcar como cavalo de Troia.

O estudo, liderado por Oleh Taratula, Olena Taratula e Yoon Tae Goo da Faculdade de Farmácia da OSU, foi publicado a 15 de junho de 2026 no Journal of Controlled Release e aborda os dois maiores obstáculos que há décadas limitam o tratamento do glioblastoma: atravessar a barreira hematoencefálica (BHE) e acumular-se seletivamente nas células tumorais sem afetar o tecido saudável.

O problema: a barreira que ninguém consegue atravessar

A barreira hematoencefálica é uma rede densa de células endoteliais que protege o sistema nervoso central. É essencial para manter o cérebro saudável, ao bloquear toxinas e agentes patogénicos presentes no sangue. Mas é também o maior entrave à entrega de fármacos: mais de 98% dos medicamentos candidatos para doenças neurológicas são rejeitados por esta barreira natural. Mesmo quando um fármaco consegue passar, raramente se concentra nas células tumorais em quantidade suficiente para ser eficaz.

A solução: nanopartículas revestidas a manose — o açúcar que engana o cérebro

A equipa da OSU desenvolveu nanopartículas lipídicas (LNP, do inglês lipid nanoparticles) — pequenas bolsas de gordura de dimensão nanométrica — carregadas com material genético. Depois, revestiram-nas com manose, um açúcar natural estruturalmente muito semelhante à glicose.

A chave está no transportador GLUT1, uma proteína presente nas células endoteliais dos vasos sanguíneos do cérebro cuja função normal é transportar glicose para o sistema nervoso central. Acontece que o GLUT1 também reconhece a manose. Ao revestir as nanopartículas com este açúcar, os investigadores criaram um disfarce molecular que as faz passar por glicose — e o transportador GLUT1 trata de as levar para dentro do cérebro.

Esquema científico do mecanismo de ação: nanopartícula lipídica revestida a manose atravessa a barreira hematoencefálica via GLUT1, entrega mRNA de PTEN a células de glioblastoma, e suprime o tumor

A nanopartícula lipídica (LNP) é revestida com manose (açúcar roxo) que se liga ao transportador GLUT1 na barreira hematoencefálica, permitindo a passagem para o cérebro. Uma vez dentro, o mRNA carregado instrui as células tumorais a produzir PTEN — uma proteína supressora de tumores — levando à apoptose (morte celular) e à redução da proliferação tumoral. Fonte: Goo et al. / Journal of Controlled Release 2026 — Ilustração: Parinaz Ghanbari / OSU

O segredo: revestimento seis vezes mais denso

A inovação técnica central do estudo reside na forma como os investigadores ligaram quimicamente a manose ao colesterol, um dos principais componentes estruturais das nanopartículas. Isto permitiu aumentar a densidade de açúcar na superfície em seis vezes, tornando as partículas muito mais atraentes para o transportador GLUT1. Em experiências com ratos, as nanopartículas revestidas a manose chegaram ao cérebro com 9,9 vezes mais eficácia do que as nanopartículas não revestidas.

Quanto mais açúcar conseguimos colocar na superfície, mais os transportadores GLUT1 as reconhecem e as transportam através da barreira. A ligação química da manose ao colesterol foi o truque que nos permitiu sextuplicar a cobertura de açúcar.

— Oleh Taratula, Oregon State University

O payload: mRNA que restaura o supressor de tumores PTEN

Dentro das nanopartículas segue uma carga especial: RNA mensageiro (mRNA) que, ao entrar nas células tumorais, as instrui a produzir a proteína PTEN (Phosphatase and Tensin Homolog). O PTEN é um supressor tumoral natural que regula o crescimento celular, mas que está frequentemente ausente ou inativo nas células do glioblastoma. Ao restaurar a produção de PTEN, o tratamento devolve ao organismo a capacidade de travar o crescimento descontrolado do tumor.

Para proteger o mRNA da degradação antes de chegar ao destino, os investigadores adicionaram um derivado catiónico de colesterol que mantém o material genético seguro dentro da nanopartícula durante a viagem pelo sangue.

Resultados: tumores encolheram 96% e sobrevivência subiu 50%

Os resultados em ratos com glioblastoma foram expressivos. Nos animais não tratados, em média 52% do cérebro estava ocupado pelo tumor ao fim de 28 dias. Nos tratados com as nanopartículas revestidas a açúcar, essa proporção caiu para apenas 2,3% — uma redução de 96% na carga tumoral.

A sobrevivência mediana aumentou de 33 para 49 dias — um ganho de 50%. E, ao contrário de muitos tratamentos oncológicos, não foi detectada toxicidade mensurável nos principais órgãos, mesmo após administrações repetidas.

O glioblastoma é metabolicamente reprogramado e expressa GLUT1 a três vezes os níveis do tecido cerebral normal. Por isso, as partículas acumulam-se preferencialmente no tecido tumoral depois de atravessarem a barreira hematoencefálica. Restaurar a expressão de PTEN nas células tumorais reinstala o controlo do crescimento.

— Olena Taratula, Oregon State University
Ilustração conceptual de nanopartícula a viajar na corrente sanguínea até um tumor cerebral, demonstrando a entrega direcionada de terapêutica

Os tumores de glioblastoma produzem GLUT1 em níveis três vezes superiores ao tecido cerebral normal, o que faz com que as nanopartículas revestidas a açúcar se acumulem preferencialmente nas células cancerosas. Fonte: Parinaz Ghanbari / Oregon State University

Limitações: ainda é um estudo pré-clínico

É importante sublinhar que estes resultados são pré-clínicos — foram obtidos em ratos, não em humanos. Muitas terapias promissoras contra o cancro que funcionam em murganhos não se traduzem da mesma forma em pessoas. A diferença entre um cérebro de rato e um cérebro humano é significativa, e o glioblastoma humano tem uma heterogeneidade tumoral muito maior.

No entanto, o estudo resolve dois problemas de engenharia que há muito limitam o tratamento do glioblastoma: a entrega através da barreira hematoencefálica e a concentração seletiva no tumor. E os investigadores acreditam que a plataforma pode ser adaptada para outras doenças neurológicas que requerem intervenção terapêutica no cérebro.

Ângulo Portugal: o que significa esta descoberta

Em Portugal, o glioblastoma afeta cerca de 3 em cada 100.000 pessoas por ano, o que corresponde a aproximadamente 300 novos casos anuais. O diagnóstico é devastador: a maioria dos doentes não sobrevive além dos dois anos. O país tem investigação de ponta nesta área — a Universidade de Coimbra anunciou recentemente um mecanismo inédito de bloqueio da proteína tau, e o Instituto de Medicina Molecular (iMM) em Lisboa desenvolve terapias de mRNA.

A tecnologia de nanopartículas lipídicas usada neste estudo é a mesma que esteve na base das vacinas contra a COVID-19 (como a da BioNTech/Pfizer). Isto significa que o know-how de produção de LNP já existe em Portugal, através de unidades fabris e centros de I&D farmacêuticos, o que poderia acelerar uma eventual translação clínica para uso humano — caso os próximos ensaios sejam bem-sucedidos.

Os investigadores da OSU sublinham que a plataforma de nanopartículas revestidas a manose pode ser generalizada para outras doenças neurológicas — desde Alzheimer a doenças neurodegenerativas — abrindo caminho para uma nova classe de terapêuticas de mRNA direcionadas ao cérebro.

Referência do estudo: Yoon Tae Goo et al., Single-ligand dual-targeting lipid nanoparticles for therapeutic mRNA delivery to glioblastoma across the blood-brain barrier, Journal of Controlled Release, vol. 396, pp. 115107, 15 junho 2026. DOI: 10.1016/j.jconrel.2026.115107

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