No cemitério de uma antiga cidade portuária da costa mediterrânica do Egito, arqueólogos descobriram algo que desafia a imaginação: dezoito tumbas que permaneceram lacradas por quase dois milénios e, dentro delas, duas dúzias de pequenas lâminas de ouro em forma de língua, colocadas na boca dos mortos.
A descoberta foi anunciada a 5 de julho de 2026 pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito e revela 18 tumbas dos períodos ptolomaico (322–30 a.C.) e romano (30 a.C.–395 d.C.) no sítio de Marina el-Alamein, a cerca de 100 km a oeste de Alexandria — a antiga cidade portuária de Leukaspis, mencionada pelo geógrafo grego Estrabão.
Marina el-Alamein (antiga Leukaspis) era um próspero porto comercial mediterrânico onde culturas egípcia, grega e romana se encontravam.
24 línguas de ouro para falar perante Osíris
Os objetos mais impressionantes são 24 amuletos de ouro em forma de língua humana, colocados na boca dos falecidos durante a mumificação. Para os antigos egípcios, o ouro era considerado "a carne dos deuses" — um material imune à decomposição. A língua de ouro tinha uma função prática e espiritual: permitir que o morto falasse no Salão das Duas Verdades, o tribunal divino descrito no Livro dos Mortos, onde o falecido teria de se declarar inocente perante Osíris e 42 deuses assessores.
As línguas de ouro são uma característica bem documentada de alguns sepultamentos dos períodos ptolomaico e romano no Egito. São interpretadas como amuletos funerários destinados a permitir que o falecido fale na vida após a morte, particularmente durante o julgamento perante Osíris.
— Hesham Hussein, subsecretário de Arqueologia do Baixo Egito e Sinai
Uma das línguas de ouro tem a forma do Olho de Hórus — o símbolo de proteção mais poderoso da mitologia egípcia, associado à cura e à realeza. A combinação de dois símbolos num só amuleto mostra a sofisticação das crenças funerárias da época, num período em que as tradições egípcias se fundiam com influências gregas e romanas.
Tumbas seladas por um tsunami
Das 18 tumbas, 11 são hipogeus (escavadas na rocha a cerca de 8 metros de profundidade) e 7 são estruturas de calcário à superfície. Muitas estavam lacradas desde a Antiguidade, com as suas câmaras funerárias fechadas por grandes placas de pedra que ninguém movia há 2.000 anos.
O estado de preservação excecional deve-se a uma catástrofe: em 365 d.C., um enorme sismo ao largo de Creta gerou um tsunami que varreu a costa oriental do Mediterrâneo, destruindo cidades inteiras, incluindo Leukaspis. A cidade nunca foi reconstruída. O que foi selado pelo mar permaneceu intacto — poupado dos saques e das reocupações que afetaram quase todos os outros sítios funerários do Egito.
Sarcófago lacrado, Afrodite e uma porta para o além
O sítio de Marina el-Alamein fica a 100 km a oeste de Alexandria, na costa mediterrânica do Egito, uma região de paisagens áridas e rica história.
Entre os outros achados impressionantes conta-se um sarcófago de granito de 2,5 metros encontrado com a tampa original no lugar, lacrado desde a Antiguidade. Os restos ósseos no seu interior estão a ser analisados. Perto do sarcófago foram encontrados fragmentos de uma estátua de esfinge em gesso — mais um sinal de que a simbologia faraónica se mantinha viva.
Foi também descoberto um altar de oferendas em calcário cuja base reproduz uma "porta falsa" — um dos motivos mais antigos da arquitetura funerária egípcia, que remonta à 1.ª Dinastia (c. 3000 a.C.). A porta falsa funcionava como uma passagem simbólica através da qual o ka (a força vital do falecido) podia circular entre o mundo dos vivos e o dos mortos para receber oferendas.
A equipa encontrou ainda uma estátua incompleta de mármore atribuída à deusa grega Afrodite, uma lápide com um homem sentado a segurar um pássaro, recipientes de vidro (lacrimaria) usados em cerimónias fúnebres, e dezenas de peças de cerâmica, ânforas e lamparinas.
Onde gregos e egípcios se encontravam na morte
Marina el-Alamein (a antiga Leukaspis) foi descoberta em 1986 durante obras de construção e, desde então, revelou ruas, residências, um porto e um total de 44 tumbas. A cidade floresceu entre os séculos II e IV d.C. como um centro comercial cosmopolita, onde gregos, romanos e egípcios negociavam e viviam lado a lado.
O que torna esta descoberta tão significativa é o que ela revela sobre a persistência das crenças faraónicas muito depois de o Egito ter caído sob domínio grego e romano. As pessoas sepultadas com línguas de ouro e altares de porta falsa não eram sacerdotes nem membros da elite — eram comerciantes helenizados, cidadãos comuns que, na hora da morte, escolheram o ritual egípcio tradicional para enfrentar o além.
Ficha da descoberta: A escavação foi dirigida por Eman Abdel Khalek, chefe da missão arqueológica em Marina el-Alamein, sob a supervisão do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito. O sítio deverá ser aberto ao público na primeira metade de 2027, com centro de visitantes, percursos pedonais e elétricos, e um anfiteatro ao ar livre. Fonte primária: comunicado do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito (4 jul 2026), reportado por Live Science, Tech Times, Ancient Origins.
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