Avião L-1011 Stargazer da Northrop Grumman a descolar com o foguetão Pegasus XL montado sob a fuselagem para lançar o satélite de resgate LINK. Crédito: NASA
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O último voo do Stargazer: NASA lança hoje missão de resgate espacial sem precedentes para salvar telescópio Swift

Um avião dos anos 70, o último Lockheed L-1011 TriStar ainda operacional, vai descolar hoje da base de Wallops, na Virgínia, com um foguetão Pegasus XL montado debaixo da barriga. Dentro do foguetão vai um satélite do tamanho de um frigorífico que tem uma missão ousada: agarrar-se a um telescópio espacial de 500 milhões de dólares que está a cair lentamente em direção à Terra e puxá-lo de volta para uma órbita segura.

É a primeira missão de resgate espacial comercial da história, e tudo começou há apenas 10 meses, quando a NASA fez uma pergunta incomum a três empresas: quem consegue construir e lançar um satélite de salvamento em menos de um ano, por 30 milhões de dólares? A resposta veio de uma startup fundada em 2020, a Katalyst Space Technologies, que apresentou o seu veículo LINK — um pequeno satélite equipado com três braços robóticos capazes de se agarrar ao Swift e elevar a sua órbita.

Ilustração do telescópio espacial Swift da NASA, com os seus três telescópios multi-espectrais e painéis solares laterais

Ilustração do telescópio Neil Gehrels Swift Observatory, lançado em 2004. O observatório de 500 milhões de dólares está a perder altitude e pode queimar-se na atmosfera este outono se a missão de resgate falhar. Crédito: NASA

O que está em jogo

O Neil Gehrels Swift Observatory (anteriormente Swift Gamma-Ray Burst Explorer) foi lançado em novembro de 2004 com a missão de detetar gamma-ray bursts (GRBs) — as explosões mais violentas do Universo, libertadas por buracos negros recém-nascidos ou estrelas de neutrões em colisão. Com três telescópios que observam em luz visível, ultravioleta, raios-X e raios-gama, o Swift consegue localizar uma explosão em segundos e apontar automaticamente os seus instrumentos para o local, permitindo que telescópios em todo o mundo façam observações de seguimento.

Mas o Swift tem um problema de design: não tem propulsores para manter a órbita. Lançado a 585 km de altitude, o atrito atmosférico tem vindo gradualmente a baixar a sua órbita. No final de junho de 2026, o Swift voava já a apenas 363 km — e a descida acelera. «A perda de altitude está a acontecer mais rapidamente do que o previsto devido a um período de atividade solar extraordinária nos últimos anos», explica Shawn Domagal-Goldman, diretor da divisão de astrofísica da NASA. «Um Sol ativo incha a atmosfera terrestre, criando mais resistência para os satélites.»

Os engenheiros da NASA estimam que, sem intervenção, o Swift cairá abaixo dos 300 km em outubro de 2026 — altitude a partir da qual já será demasiado arriscado para o Katalyst se aproximar em segurança. Depois disso, o Swift queima na atmosfera e perde-se um dos observatórios mais produtivos da história da astrofísica.

Técnicos da NASA e da Katalyst Space Technologies preparam o satélite LINK numa câmara de vibração no Goddard Space Flight Center

O veículo LINK da Katalyst Space Technologies durante testes de vibração no Goddard Space Flight Center, em abril de 2026. Construído em menos de 10 meses, o LINK usará três braços robóticos para se agarrar ao Swift. Crédito: NASA/Scott Wiessinger

O resgate: três braços robóticos e uma cronometragem apertada

O plano da missão é tão simples na descrição quanto complexo na execução. O LINK será lançado 30 de junho a bordo de um Pegasus XL, um foguetão de três estágios lançado a partir do ar. O avião L-1011 Stargazer — um Lockheed TriStar modificado pela Northrop Grumman — já saiu de Wallops Island, na Virgínia, na quinta-feira e fez a viagem de vários dias até ao Atol de Kwajalein, no Oceano Pacífico equatorial. É daqui, sobre o Pacífico, que o Stargazer vai subir até cerca de 12 km de altitude e largar o Pegasus XL. Cinco segundos depois, o motor do primeiro estágio acende e o foguetão segue para o espaço.

O L-1011 Stargazer é uma peça de museu viva. Entrou ao serviço em 1974 como avião comercial da Air Canada, foi convertido em lançador aéreo nos anos 90 pela Orbital Sciences (hoje Northrop Grumman) e é o único avião do seu tipo ainda operacional no mundo. Já lançou dezenas de missões, incluindo os satélites CYGNSS da NASA e o observatório IBEX, mas esta será provavelmente a sua missão mais mediática — e uma das últimas, já que a Northrop Grumman descontinuou o Pegasus.

Uma vez em órbita, o LINK terá de manobrar até ao Swift e usar os seus três braços robóticos para agarrar o observatório. Depois de acoplado, o LINK acionará os seus próprios propulsores para elevar o Swift para uma órbita mais alta e segura, prolongando a sua vida útil por vários anos. «Considero isto já um sucesso, só pelo facto de estarmos sequer a tentar fazê-lo», disse Shawn Domagal-Goldman à Ars Technica.

Uma oportunidade para a Europa

O sucesso desta missão pode abrir um novo mercado: o de reparação e manutenção de satélites em órbita. Hoje, a maioria dos satélites científicos e de comunicação são descartados quando ficam sem combustível ou avariam — mesmo que os seus instrumentos ainda funcionem perfeitamente. A capacidade de os reabastecer, reparar ou reposicionar pode prolongar a vida útil de infraestruturas espaciais críticas por décadas.

Para a Europa e para Portugal, esta é uma área de interesse estratégico. A ESA tem já programas de in-orbit servicing em estudo, e empresas europeias — incluindo portuguesas — podem vir a beneficiar de uma indústria nascente de serviços espaciais. O sucesso do LINK pode ser o primeiro passo para transformar o resgate de satélites de conceito em rotina.

Factos rápidos

Missão: Swift Boost Mission (LINK por Katalyst Space)
Lançamento: 30 de junho de 2026, Oceano Pacífico (Atol de Kwajalein)
Veículo: Pegasus XL (lançado do L-1011 Stargazer)
Alvo: Neil Gehrels Swift Observatory (órbita atual: ~363 km)
Custo: 30 milhões de dólares (NASA)
Janela crítica: Swift cai abaixo dos 300 km em outubro de 2026
Tecnologia: 3 braços robóticos para acoplagem e elevação orbital

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