Operação de campo de radioamadores da ARBB junto a um rio, com antenas verticais e estações portáteis montadas
📻 Rádio Frequência

Radioamadorismo em Portugal — a rede que não cai quando a internet falha

No dia em que a internet cai, o 5G satura ou um desastre natural varre a infraestrutura de comunicações de uma região, país, ou até do mundo, há uma rede que continua de pé. Não depende de fibra, não precisa de torres de operadoras, não consome largura de banda contratada. Depende de um fio minimalista que faz de antena, de uma bateria e de alguém que saiba ouvir o espectro eletromagnético. Chama-se radioamadorismo, e em Portugal há mais operadores licenciados do que a maioria imagina.

A Associação de Radioamadores da Beira Baixa (ARBB), fundada a 27 de janeiro de 2005, nasceu da vontade de um grupo de entusiastas locais em promover a salvaguarda técnica, a entreajuda e a dinamização das radiocomunicações na região. Hoje, conta com 30 associados — inseridos num universo de aproximadamente 70 radioamadores licenciados em todo o distrito de Castelo Branco. O perfil? Desde engenheiros e informáticos a estudantes e profissionais de áreas não tecnológicas, unidos pelo interesse comum na ciência da radioeletricidade. A média de idades ronda os 50 anos, mas o entusiasmo pelas ondas hertzianas não conhece idade.

Mas o que é exatamente ser radioamador? Numa época em que tudo é "apertar um botão e falar", ser radioamador é o oposto. É exercer um serviço de radiocomunicações com carácter de instrução técnica, interligando experimentação, investigação e lazer. Os seus praticantes, devidamente licenciados pela ANACOM, utilizam estações próprias para comunicar com outros operadores em todo o mundo, explorar a propagação das ondas electromagnéticas — o éter — e desenvolver competências tecnológicas. E, ao contrário do que muitos pensam, não é uma atividade do século passado — está mais viva do que nunca.

Estação de rádio montada numa tenda durante o JOTA (Jamboree on the Air) — escuteiros e radioamadores unidos pelas ondas

Internet de reserva? O rádio é a reserva da internet

Enquanto a internet depende de uma infraestrutura física centralizada e vulnerável — cabos submarinos, servidores, energia elétrica — o radioamadorismo assenta na total independência de redes de terceiros. E mais: o rádio moderno integra-se perfeitamente com a internet, criando sistemas híbridos que expandem as capacidades de experimentação. O carácter inovador dos radioamadores, o seu historial de testar tecnologias antes de estas chegarem ao grande público, tem sido ao longo da história um motor silencioso de inovação. A telefonia móvel e a própria internet beberam muito do conhecimento gerado nas oficinas e shacks dos radioamadores.

A evolução técnica é impressionante. Dos populares FT8/FT4 — modos digitais que permitem contactos globais com potências tão baixas como 1 watt — ao DMR (rádio digital que cria redes mundiais IP a partir de repetidores locais), os radioamadores Portugueses estão na linha da frente. O FreeDV, um sistema de código aberto que digitaliza a voz para transmissão em ondas curtas, já está em fase experimental. As comunicações por satélite, incluindo o QO-100 (geoestacionário), democratizaram o acesso ao espaço. E depois há a EME (Earth-Moon-Earth) — o expoente máximo da engenharia amadora, que consiste em fazer um sinal de rádio refletir-se na superfície da Lua e regressar à Terra. Isto não é ficção científica. Acontece a partir de garagens, quintais e campos na Beira Baixa.

Operadores da ARBB a fazer contactos de rádio numa operação de campo, com o indicativo CS7BAF — Hélder Esteves ao microfone

Quando tudo o resto falha, o rádio responde

Em cenários de catástrofe — incêndios florestais de grandes dimensões, cheias como as que assolaram a Lezíria e o Baixo Tejo nos anos 70 e 80, ou sismos como o dos Açores em 1980 — quando as redes móveis e a internet colapsam, os radioamadores constituem a última linha de comunicação. A ARBB colabora regularmente com entidades de proteção civil e socorro, disponibilizando operadores e estações para garantir o fluxo de informação crítica entre postos de comando isolados e centros de decisão nacionais. Em Portugal, este papel está consagrado na lei e a sua relevância é reconhecida pelas autoridades — sempre que solicitados para tal.

Ser radioamador em Portugal exige a obtenção do Certificado de Amador Nacional (CAN), emitido pela ANACOM. O exame avalia conhecimentos de regulamentação, procedimentos operacionais e conceitos básicos de eletrotecnia. É perfeitamente acessível a quem demonstre dedicação ao estudo. O processo está estruturado em três categorias (3, 2 e 1), com progressão gradual à medida que o praticante adquire experiência. Não é um exame de entrada — é uma certificação de que o operador sabe o que está a fazer no espectro.

Reunião na estação de rádio da ARBB com representantes dos Bombeiros — demonstração da colaboração entre radioamadores e serviços de emergência

O que vem a seguir

Para o biénio 2025/2026, a ARBB prepara um plano ambicioso: modernização dos repetidores regionais, ativações de campo (Field Days), participação em concursos internacionais, workshops técnicos abertos ao público, protocolos com autarquias locais e entidades de proteção civil, e projetos de desenvolvimento na área da interoperabilidade de sistemas de comunicações. Estão também a criar programas inovadores para a comunidade escolar, levando a tecnologia das radiocomunicações aos jovens — algo que a ANACOM tem incentivado e que a ARBB já está a pôr em prática.

A pergunta que fica: quando a internet cair a sério — e vai cair, mais cedo ou mais tarde — quem é que sabe realmente comunicar sem ela?

Júlio Vaz de Carvalho (CS5RBB)

Fonte: ARBB · Júlio Vaz de Carvalho · 22 MAI 2026

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