Projeto ASTRAL — consórcio Português desenvolve filme ultrafino de grafeno para absorção electromagnética, com aplicações em defesa, automóvel e telecomunicações. Crédito: Tek SAPO/Controlar/Graphenest
🔬 Ciência

Portugal desenvolve primeiro material stealth europeu à base de grafeno — Projeto ASTRAL vai ser testado na Força Aérea

Há materiais que são essenciais para a indústria moderna — civil e militar —, mas que são fabricados quase exclusivamente nos Estados Unidos, com fórmulas protegidas por segredo industrial. O projeto ASTRAL pretende mudar isso, e fá-lo a partir de Portugal.

Um consórcio composto por quatro entidades Portuguesas arrancou no início de junho com um objetivo ambicioso: desenvolver, pela primeira vez na Europa, um material com propriedades de absorção electromagnética — a famosa tecnologia stealth — baseado em grafeno. O material, um filme flexível ultrafino aplicado em multicamadas, combina grafeno com partículas magnéticas e é capaz de absorver ondas eletromagnéticas desde os 2 até aos 110 GHz, cobrindo praticamente toda a gama de frequências usada pela indústria moderna.

O que é o projeto ASTRAL

O ASTRAL é liderado pela Controlar, empresa sediada em Alfena (Porto) com mais de 30 anos de experiência em sistemas de teste eletrónico, robótica e automação para as indústrias automóvel e aeroespacial. Igualmente fundamental é a Graphenest, sediada em Sever do Vouga (Aveiro), a única empresa Portuguesa com capacidade industrial de produção de grafeno. Completam o consórcio o PIEP (Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros) e a Universidade de Aveiro, que contribui com investigação avançada em materiais magnéticos.

O material assenta numa combinação única de características — flexibilidade, leveza e cobertura espectral alargada — que nunca existiu na Europa neste formato. Na prática, o ASTRAL visa substituir as volumosas espumas piramidais que revestem as câmaras anecóicas (salas blindadas onde se testam equipamentos eletrónicos), substituindo-as por um filme flexível de menor espessura que se adapta a qualquer superfície.

Com um financiamento de 1,86 milhões de euros ao abrigo do Portugal 2030, o projeto decorre entre junho de 2026 e maio de 2029 e prevê o registo de pelo menos uma patente internacional.

Três setores estratégicos

O impacto potencial do ASTRAL distribui-se por três áreas críticas. Na indústria automóvel, a tecnologia serve para testar e calibrar os radares ADAS que equipam milhões de veículos fabricados por clientes diretos do consórcio — Bosch, Visteon, Continental, Aptiv e BorgWarner. Nas telecomunicações, oferece blindagem electromagnética leve e adaptável para infraestruturas 5G e dispositivos de nova geração.

Mas o setor mais estrategicamente sensível é o aeroespacial e da defesa. Ao contrário dos revestimentos furtivos tradicionais, que são pesados, rígidos e limitados meteorologicamente, o filme do ASTRAL adapta-se a qualquer geometria de aeronave sem comprometer o peso ou o desempenho. A Força Aérea Portuguesa pretende participar nos ensaios finais do projeto, com aplicação direta em veículos aéreos não tripulados de perfil furtivo.

O ASTRAL representa um passo decisivo para a Europa na conquista de autonomia tecnológica numa área até agora dominada pelos Estados Unidos. Portugal tem atualmente as competências e os parceiros certos para desenvolver esta tecnologia de raiz.

— Bruno Figueiredo, Co-CEO da Graphenest
Grafeno utilizado no Projeto ASTRAL — material ultrafino e flexível com propriedades de absorção electromagnética. Crédito: Tek SAPO/Graphenest

O mercado global

O mercado global de materiais de absorção electromagnética foi avaliado em $828 milhões (€729 milhões) em 2025, com crescimento previsto para $1,1 mil milhões (€968 milhões) em 2034. Já o mercado de câmaras anecóicas deverá crescer dos atuais $1,6 mil milhões (€1,41 mil milhões) para $2,3 mil milhões (€2,02 mil milhões) até 2030.

É uma honra liderar um projeto desta dimensão estratégica. O nosso objetivo é colocar esta experiência ao serviço do desenvolvimento de uma solução verdadeiramente inovadora, que reforce a soberania tecnológica europeia e abra novos mercados para as empresas Portuguesas.

— João Queirós, Chief R&D Officer da Controlar

Graphenest: a única produtora de grafeno de Portugal

Fundada em 2015, a Graphenest é detentora de várias patentes nos EUA e no Canadá e tem parcerias com empresas como a Mitsubishi e a Valeo. A empresa produz atualmente cerca de uma tonelada por ano de grafeno na sua unidade de Sever do Vouga, mas prepara uma ronda de investimento de cinco milhões de euros para escalar a produção para 50 toneladas anuais até ao final de 2028.

A empresa tem já dois produtos validados industrialmente: o G-Shield, um composto termoplástico para blindagem electromagnética, e o HexaShield, uma tinta condutora à base de grafeno. A equipa atual de nove pessoas deverá crescer para 50 colaboradores até 2028, com a abertura de uma nova unidade de produção.

O setor da defesa é, neste momento, uma prioridade estratégica para a Graphenest. O contexto geopolítico atual acelerou a necessidade de soluções europeias para proteção electromagnética e redução da deteção por sistemas de radar, e o grafeno tem um papel claro a desempenhar nesse domínio.

— Vítor Abrantes, CEO da Graphenest

O mercado europeu de proteção electromagnética está avaliado em cerca de 10 mil milhões de euros até 2030, e a defesa representa uma fatia relevante dessa procura, impulsionada pelo rearmamento da NATO e pela necessidade de autonomia tecnológica Europeia.

Numa altura em que a Europa acelera o reforço da sua base industrial de defesa e procura alternativas à dependência de fornecedores externos em setores críticos, o projeto ASTRAL coloca Portugal na linha da frente do desenvolvimento de materiais avançados. Como resume Bruno Figueiredo: «Queremos posicionar-nos como um fornecedor de tecnologia com marca europeia — e diminuir a dependência de outros países, nomeadamente dos EUA e da China.»

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