Quatro pontos de contacto do tamanho da palma de uma mão — é só isto que separa o teu carro do asfalto a 120 km/h. E no entanto, estudos da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) indicam que cerca de 30 por cento dos veículos ligeiros que circulam em Portugal têm pelo menos um pneu com pressão abaixo do recomendado, e que 15 por cento apresentam rasto inferior ao mínimo legal. Falamos de valores que comprometem a travagem em piso molhado, a estabilidade em curva e o comportamento geral do veículo — e que, nos acidentes com vítimas, são frequentemente apontados como fator contributivo.
Nem todos os pneus são iguais, nem servem para todos os carros. Um SUV de duas toneladas precisa de pneus com índice de carga superior ao de um citadino ligeiro — não é uma questão de conforto, é de segurança, e a lei obriga ao cumprimento dos índices de carga e velocidade definidos pelo fabricante (DL 44/2005, art. 4.º), tal como inscritos no Documento Único Automóvel. Os pneus de verão privilegiam a aderência em seco e a resistência à aquaplanagem, os de inverno estão otimizados para temperaturas abaixo dos 7 graus e estradas escorregadias, e os all-season tentam fazer um bocadinho de tudo sem se destacarem em nada. Em Portugal continental, os all-season são uma opção razoável para a maioria dos condutores, mas para quem vive em zonas de serra ou faz viagens frequentes à neve, um conjunto de inverno dedicado faz toda a diferença no coeficiente de atrito.
As operações de fiscalização rodoviária são levadas a cabo pela GNR e pela PSP — as duas autoridades responsáveis por verificar o cumprimento das regras de segurança nas estradas portuguesas.
O que a lei exige (e o que as autoridades verificam)
O Código da Estrada e o Decreto-Lei n.º 44/2005, de 23 de fevereiro, são claros: a profundidade do rasto não pode ser inferior a 1,6 milímetros para veículos ligeiros (artigo 7.º). Mas este número é o mínimo absoluto — abaixo dos 3 milímetros, o risco de aquaplanagem em piso molhado começa a aumentar de forma significativa. Nos pneus de inverno, que têm compostos mais macios e borracha mais flexível a baixas temperaturas, o desempenho degrada-se bastante abaixo dos 4 milímetros — embora a lei não fixe um limite específico para este tipo de pneu, os especialistas recomendam a substituição nessa altura.
Os guardas da GNR e os agentes da PSP, nas operações de fiscalização rodoviária, verificam não só o rasto como o estado geral dos pneus — cortes, deformações, bolhas e desgaste irregular. E não se pense que pneus diferentes no mesmo eixo são permitidos: a lei exige que os pneus do mesmo eixo sejam do mesmo tipo, da mesma marca, da mesma dimensão e do mesmo desenho de banda de rodagem (DL 44/2005, art. 7.º, n.º 1). As coimas por esta contra-ordenação grave (artigo 147.º do Código da Estrada) variam entre 250 e 1.250 euros, podendo o valor agravar-se para os 2.500 euros se o veículo estiver em condições manifestamente perigosas. O veículo pode ainda ser retido até regularização. A ANSR publicou em 2024 um relatório onde revela que as operações de fiscalização rodoviária resultaram em mais de 7.000 autos relacionados com pneus em mau estado — e só tem aumentado desde aí.
O painel de instrumentos é onde o condutor vê os dados do veículo — velocidade, rotações e, nos carros modernos, a pressão dos pneus através do sistema TPMS (obrigatório na UE desde 2014).
A pressão certa — um hábito que custa segundos
A pressão recomendada pelo fabricante está inscrita nas portas do carro, na tampa do depósito ou no manual do veículo. Os valores típicos rondam os 2,2 a 2,4 bar para um ligeiro em condições normais de carga, mas cada modelo tem as suas especificações. A pressão deve ser verificada com os pneus frios — ou seja, antes de iniciar a marcha ou com menos de três quilómetros rodados. Um pneu a meio de uma viagem na autoestrada pode apresentar valores inflacionados pelo aquecimento, dando uma falsa sensação de segurança.
Os especialistas recomendam a verificação quinzenal da pressão, e sempre antes de uma viagem longa. Uma diferença de 0,5 bar abaixo do recomendado aumenta o consumo de combustível em 2 a 3 por cento e reduz a vida útil do pneu em mais de 10 mil quilómetros. Acima do recomendado, o pneu perde aderência e desgasta-se mais ao centro. Há quem confie nos sensores de pressão TPMS — obrigatórios na União Europeia para todos os veículos ligeiros novos desde 2014 (Regulamento CE n.º 661/2009) —, mas estes detectam diferenças abruptas, não a degradação gradual de pressão que se perde ao longo de semanas.
Verificar a pressão dos pneus a cada 15 dias, com os pneus frios, é um dos gestos mais simples e eficazes para evitar acidentes e poupar combustível.
Resumo rápido de segurança rodoviária
✅ Rasto mínimo: 1,6 mm por lei (art. 7.º DL 44/2005) — mas substitui aos 3 mm para segurança em molhado. ✅ Pressão: verifica a cada 15 dias com pneus frios — consulta o manual do veículo (típico: 2,2-2,4 bar). ✅ Pneus do mesmo eixo: obrigatoriamente iguais em marca, tipo, dimensão e desenho (DL 44/2005). ✅ Índices de carga e velocidade: obrigatórios por lei — respeita os especificados pelo fabricante no DUA. ✅ Pneus de inverno: fazem diferença real abaixo dos 7°C (recomendação técnica: substituir a partir dos 4 mm). ✅ Rodagem: troca da frente para trás a cada 10.000 km para desgaste uniforme. ✅ Estado geral: verifica cortes, bolhas ou deformações visíveis — à vista desarmada já se vê muita coisa.
E já agora — se os argumentos da segurança não chegarem, vale a pena lembrar que as multas também doem quase tanto como um acidente. A diferença é que uma coima de 250 euros por pneu careca só dói na carteira, e não deixa sequelas. Mas convém não testar os limites de tolerância — nem os da carteira, nem os do asfalto.
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