Falar de inteligência artificial costuma significar falar de modelos que trabalham com texto, imagens ou código. O euROBIN quis mostrar a outra metade da história: sistemas que percebem o mundo físico, decidem o que fazer e actuam sobre ele através de motores, braços, rodas ou pernas.
Ilustração original do Portugal Binário: quatro robôs de investigação a colaborar numa tarefa doméstica. Não é uma fotografia do evento euROBIN.
A IA saiu do ecrã
O conceito é conhecido como IA física. No evento final da rede, realizado no Parlamento Europeu, participaram quinze robôs desenvolvidos por equipas europeias. Havia sistemas humanoides, quadrúpedes, drones e robôs industriais. As demonstrações cobriram manipulação de objectos, navegação autónoma, equilíbrio e tarefas quotidianas.
O objectivo não era apresentar um único robô universal. Era mostrar que diferentes laboratórios conseguem fazer as suas máquinas cooperar e reutilizar capacidades em ambientes e tarefas diferentes — um problema central para transformar investigação em produtos que possam sair do laboratório.
Quatro robôs a arrumar uma mesa
O Instituto de Sistemas e Robótica de Lisboa (ISR-Lisboa), ligado ao Instituto Superior Técnico, liderou o cenário dedicado a robôs pessoais e bem-estar. Numa das demonstrações, quatro robôs desenvolvidos pelo ISR-Lisboa, pelo Centro Aeroespacial Alemão (DLR), pelo Karlsruhe Institute of Technology e pelo centro Inria da Universidade de Lorena trabalharam em conjunto.
O grupo tinha de identificar objectos espalhados por uma mesa e encaminhá-los para destinos diferentes: gavetas, caixote do lixo, frigorífico e máquina de lavar. Parece uma tarefa doméstica simples, mas exige várias capacidades ao mesmo tempo: perceber a posição e a identidade dos objectos, decidir a sequência de acções, agarrá-los sem os deixar cair e coordenar as máquinas num espaço partilhado.
Para o ISR-Lisboa, a demonstração serviu também para mostrar a maturidade da robótica portuguesa num contexto europeu. A equipa não se limitou a levar um robô: coordenou o cenário completo e participou na preparação técnica do evento, depois de três dias de ensaios realizados na Vrije Universiteit Brussel.
Uma rede com 31 organizações
O euROBIN reúne 31 organizações de 14 países e 26 cidades europeias, com financiamento do programa Horizon Europe. A rede foi criada para aproximar grupos que trabalham em áreas diferentes e permitir a partilha de software, dados, métodos e competências entre robôs.
Além do cenário dos robôs pessoais, o programa mostrou sistemas para fabrico orientado para uma economia circular e robôs exteriores para comunidades sustentáveis. A apresentação juntou cerca de 170 representantes da política, da indústria e da investigação europeias.
Esta dimensão política não foi acidental. A Europa tem uma forte base científica em robótica, mas enfrenta a dificuldade de transformar protótipos e resultados académicos em empresas capazes de fabricar e vender em grande escala. O evento colocou essa questão no centro da discussão: a investigação europeia consegue demonstrar capacidades, mas precisa de investimento, produção e adopção industrial para competir com os Estados Unidos e a China.
A demonstração não é um robô doméstico pronto
Há uma diferença importante entre uma demonstração bem-sucedida e um produto disponível. Os quatro robôs trabalharam num cenário preparado, com equipas especializadas e condições conhecidas. Isso prova que a percepção, a manipulação e a coordenação podem ser combinadas; não significa que já exista um robô capaz de arrumar sozinho qualquer casa, sem supervisão e a baixo custo.
O próprio euROBIN apresenta a próxima etapa como um problema de escala. A Europa já tem investigadores, laboratórios e sistemas capazes de executar tarefas complexas. Falta transformar essa competência distribuída numa cadeia industrial contínua, com plataformas, componentes e software que possam ser reutilizados fora das demonstrações.
É aí que a participação do Técnico ganha interesse: a história não é apenas a de quinze robôs num edifício político. É a tentativa de provar que diferentes equipas europeias — incluindo uma portuguesa — conseguem construir uma base comum para máquinas que aprendem, cooperam e actuam no mundo real.
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