O governo de Pedro Sánchez aprovou esta semana um investimento de 719 milhões de euros, financiados por fundos europeus, para o consórcio espanhol que lidera a candidatura ibérica a uma das gigafábricas de inteligência artificial da União Europeia. A decisão, anunciada a 16 de junho pelo Conselho de Ministros espanhol, é um passo crítico para a candidatura que junta Portugal e Espanha — e que prevê instalar metade da infraestrutura em Sines.
As gigafábricas de IA são centros de dados de última geração, concebidos para albergar centenas de milhares de GPUs dedicados ao treino e inferência de modelos de inteligência artificial.
O consórcio espanhol é maioritariamente privado: o Banco Santander, a construtora ACS e a Telefónica detêm, cada um, 15,67% do capital (47% no total). A Multiverse Computing, empresa espanhola especializada em computação quântica para IA, fecha o bloco privado com 4%, elevando a participação privada para 51%. O Estado espanhol, através da Sociedade Espanhola para a Transformação Tecnológica (SETT, a 'SEPI digital'), fica com 47,99%, e a Generalitat da Catalunha com 1% inicial, via Incasòl.
Uma candidatura ibérica — Sines e Tarragona
Durante a 36.ª Cimeira Luso-Espanhola, em março de 2026, Luís Montenegro e Pedro Sánchez anunciaram a intenção de apresentar uma candidatura conjunta. Em abril, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, confirmou que o projeto é de "igual para igual": do lado português, a gigafábrica ficará instalada em Sines, com redundância em Lisboa; do lado espanhol, a infraestrutura será em Móra la Nova (Tarragona), a cerca de 100 km de Barcelona. O investimento total estimado ronda os 8 mil milhões de euros, combinando capitais públicos, privados e fundos europeus.
A corrida europeia às gigafábricas de IA
A Comissão Europeia prepara-se para lançar o concurso oficial para as gigafábricas de IA no verão de 2026, no âmbito do plano InvestAI. Serão selecionadas pelo menos quatro instalações em diferentes Estados-membros, com financiamento comunitário para infraestruturas que deverão estar operacionais entre 2027 e 2028. Cerca de 70 candidaturas foram manifestadas a nível informal por 16 Estados-membros, em 60 localizações diferentes. A escolha final é uma das decisões mais aguardadas da política de inovação europeia — e coloca a Península Ibérica numa posição competitiva relevante.
Cada gigafábrica é um centro de dados massivo, desenhado para albergar centenas de milhares de GPUs (unidades de processamento gráfico) especializadas no treino e inferência de grandes modelos de linguagem (LLM) e sistemas de visão artificial. A diferença para um centro de dados tradicional é a densidade de computação: uma gigafábrica de IA é, essencialmente, uma superfábrica de inteligência. Bruxelas prevê mobilizar cerca de 20 mil milhões de euros para o programa, com o objetivo de dotar a Europa de capacidade própria de computação avançada e reduzir a dependência tecnológica dos EUA e da China.
O que significa para Portugal
A aprovação espanhola de 719 milhões para o consórcio ibério é uma boa notícia para a candidatura de Sines. O projeto português, encabeçado pelo Banco Português de Fomento (BPF), prevê uma infraestrutura de 28 mil metros quadrados e a criação de 270 postos de trabalho diretos altamente qualificados. Mas o calendário é apertado: a Comissão Europeia deverá tomar a decisão final ainda em 2026, e a competição inclui candidaturas de França, Alemanha, Itália, Países Baixos e Polónia, entre outros. Sines oferece vantagens competitivas — espaço disponível, acesso a energia, localização estratégica e um ecossistema tecnológico em crescimento — mas a decisão final dependerá da solidez do consórcio ibério e da capacidade de mobilizar o investimento total previsto.
Feito por humanos — Portugal Binário
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