«Se começássemos hoje, ainda levaríamos muitos anos a construir capacidade autónoma — temos de agir rapidamente. O custo da inação superaria largamente o investimento necessário.» A frase é de Josef Aschbacher, diretor-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), e faz parte de um editorial histórico que está a ecoar por toda a indústria espacial europeia. O título diz tudo: «Are we pilots or passengers?» («Somos pilotos ou passageiros?»).
Publicado no Europe Daily Bulletin da Agence Europe a 12 de maio de 2026, o editorial de Aschbacher é um alerta sem precedentes sobre a dependência espacial europeia. O gatilho foi a decisão dos Estados Unidos de pausar o Gateway (a estação orbital lunar do programa Artemis) e cancelar a Mars Sample Return, duas missões em que a Europa tinha investido significativamente. «As recentes alterações à arquitetura Artemis sinalizam um panorama em rápida mutação na exploração espacial tripulada», escreve Aschbacher. «A Europa tornou-se demasiado exposta a decisões fora do seu controlo.»
Vinte e três países, uma única voz
Aschbacher sublinha que a ESA já tem a capacidade técnica para voos tripulados autónomos. A agência construiu sistemas de classe mundial: o programa Copernicus (o maior sistema de observação da Terra do mundo), o Galileo (referência global em navegação por satélite), missões científicas emblemáticas como a Juice (a caminho de Júpiter) e o Rosetta, e uma indústria robótica de exploração que rivaliza com qualquer potência espacial.
A estratégia Explore2040, já aprovada pelos Estados-Membros, lançou as bases para uma capacidade europeia de voo tripulado e robótico. No entanto, as decisões políticas nunca foram até ao fim da autonomia total. «A força coletiva de 23 Estados-Membros está longe de ser uma limitação — esta diversidade é o nosso maior ativo, financeira, política, industrial e intelectualmente», defende Aschbacher.
Mas o alerta é claro: «A fragmentação enfraquece-nos; a união amplifica-nos. As nações europeias devem resistir à tentação de olhar para dentro — seguir caminhos isolados para a Lua e além. A longo prazo, nenhum Estado-Membro consegue sozinho o que podemos alcançar juntos.» Em 2025, a ESA aprovou um orçamento recorde de 22,1 mil milhões de euros.
O timing político perfeito
Aschbacher sublinha que 2026 é um ano de confluência rara de marcos políticos e de financiamento: o Conselho da ESA em junho, a Cimeira Espacial Internacional em setembro, o Conselho Ministerial Intermédio da ESA sobre exploração em dezembro e o Conselho Ministerial pleno em 2028. Em paralelo, a União Europeia está a finalizar o seu Quadro Financeiro Plurianual 2028–2034. «Nunca houve melhor momento. Se não for agora, quando? Se não for a ESA, quem?»
A questão da autonomia espacial europeia ganha ainda mais relevância num contexto em que a Estados Unidos reorienta as suas prioridades espaciais para Marte (com a Starship da SpaceX) e a China avance com a sua própria estação espacial e missões à Lua. A Europa, sem capacidade de transporte tripulado próprio, depende da Rússia (Soyuz, agora indisponível) ou dos EUA (Crew Dragon, Starliner) para colocar astronautas no espaço.
O que significa para Portugal
Portugal é membro da ESA desde 2000 e contribui anualmente para o orçamento da agência. Empresas portuguesas como a GMV, o CEiiA e a Spin.Works têm participado em missões emblemáticas. Uma ESA mais autónoma significa mais contratos, mais oportunidades de investigação e um papel mais relevante para a indústria espacial portuguesa num setor que vale globalmente mais de 400 mil milhões de euros.
O Conselho da ESA de junho de 2026 — que começa dentro de dias — será o primeiro teste à vontade política dos Estados-Membros de seguir o caminho traçado por Aschbacher. «A história não vai esperar que a Europa se sinta confortável e pronta; vai avançar com ou sem nós», conclui o diretor-geral da ESA.
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