A China Aviation Lithium Battery (CALB), quarta maior fabricante mundial de baterias (4,4% de quota global em 2024), lançou oficialmente a construção da sua primeira fábrica europeia de grande escala em Sines. O projeto, avaliado em cerca de €2 mil milhões, arrancou com a injeção de €48 milhões na subsidiária portuguesa e a adjudicação de um contrato de €207,3 milhões à construtora nacional Mota-Engil para a primeira fase das obras.
O anúncio foi feito à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e marca o arranque efetivo de um dos maiores investimentos industriais estrangeiros em Portugal. A fábrica, instalada na Zona Industrial e Logística de Sines, ocupará inicialmente 17 hectares com 62 mil metros quadrados de infraestrutura de fabrico, incluindo edifícios de produção de elétrodos e células, central elétrica integrada, armazenamento químico e sistemas de gestão de resíduos. As obras têm duração estimada de 22 meses, com conclusão prevista para julho de 2028.
A fábrica da CALB em Sines será construída numa área de 17 hectares, com capacidade para produzir 15 GWh de baterias por ano
O maior investimento chinês em Portugal
Com uma capacidade de produção de 15 gigawatts-hora (GWh) por ano — suficiente para baterias de aproximadamente 187 mil veículos elétricos — a gigafábrica da CALB posiciona-se como um nó crítico na cadeia europeia de baterias. A empresa, subsidiária da estatal Aviation Industry Corporation da China e cotada na Bolsa de Hong Kong, descreve a instalação como uma «Zero-Carbon AI Gigafactory», com produção altamente automatizada e integração de sistemas de armazenamento de última geração.
O governo português formalizou €350 milhões em incentivos ao investimento em janeiro de 2026, no âmbito de uma cerimónia mais ampla que incluiu seis contratos num total de €3,077 mil milhões em vários projetos do setor das baterias. A fábrica tem estatuto PIN (Projeto de Interesse Nacional), que acelera as aprovações ambientais e de ligação à rede elétrica. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) emitiu uma Avaliação de Impacte Ambiental favorável em 2024, com cerca de 90 medidas de mitigação, incluindo compensação pela perda de cerca de 5,3 hectares de habitat de sobreiro e a construção de um parque solar compensatório.
1800 empregos e impacto de 4% no PIB
A CALB prevê a criação de 1.800 postos de trabalho diretos, dos quais 497 a 600 altamente qualificados. A estimativa de impacto económico é impressionante: em plena capacidade, a fábrica pode representar mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional — um valor potencialmente superior ao da fábrica da Autoeuropa da Volkswagen, em Palmela.
A localização em Sines não é inocente. O porto de Sines, um dos maiores portos de águas profundas da Europa, opera 24 horas por dia e tem ligações ferroviárias diretas para o interior da Península Ibérica, facilitando a importação de matérias-primas e a distribuição de baterias por toda a Europa. O projeto sinergiza ainda com os depósitos de lítio do Barroso (previstos para entrar em produção em 2027), posicionando Portugal como um hub completo na cadeia de valor das baterias — da extração ao fabrico.
A CALB juntou-se ao Battery Cluster Portugal e comprometeu-se com uma estratégia de aprovisionamento «global mais local», com empresas portuguesas de engenharia e construção — como a Mota-Engil e a COBA — já integradas no projeto. — EV / Cláudio Afonso, 26 mai 2026
Geopolítica das baterias
A chegada da CALB a Sines insere-se num movimento mais amplo de fabricantes chineses de baterias e veículos elétricos — BYD, Leapmotor, Dongfeng, Chery, XPeng — a estabelecerem produção na Europa. Para Portugal, o projeto representa um teste à relação UE-China no setor crítico das baterias, num momento em que Bruxelas debate tarifas e requisitos de conteúdo local para veículos elétricos chineses.
Com a produção inicial prevista para 2027 e operação comercial completa em 2028, a CALB promete produzir tanto baterias de alto desempenho (NCM) como baterias de menor custo (LFP), adaptadas à procura do mercado europeu — para automóveis elétricos e para sistemas de armazenamento de energia estacionários. A combinação com o porto de Sines, o lítio nacional e os incentivos europeus faz de Portugal um dos polos mais promissores da nova geografia industrial das baterias.
Feito por humanos — Portugal Binário
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