Nunca a Europa instalou tantas baterias num só ano. Em 2025, foram 36 GWh de nova capacidade de armazenamento — o 12.º ano consecutivo de crescimento e a primeira vez que a capacidade acumulada ultrapassa os 100 GWh, um marco que coloca o armazenamento de energia no centro da transição energética europeia.
Os números constam do European Battery Market Outlook 2026–2030, da SolarPower Europe, divulgado a 23 de junho de 2026. O crescimento de 48% face a 2024 representa uma recuperação forte depois de um ano mais lento, impulsionado sobretudo pelo segmento utility-scale (grandes parques de baterias ligados à rede), que, pela primeira vez, representou mais de metade das novas instalações.
Este crescimento reflete três tendências de fundo: a crescente necessidade de flexibilidade do sistema elétrico à medida que a geração solar e eólica aumenta, a melhoria dos modelos de negócio suportados pelo empilhamento de receitas («revenue stacking»), e o desenvolvimento rápido de projetos híbridos de solar-mais-baterias.
Alemanha, Reino Unido e Itália lideram. Ucrânia surpreende
A Alemanha, o Reino Unido e a Itália mantiveram-se como os três maiores mercados de baterias da Europa em 2025. Mas a grande surpresa foi a Ucrânia, que entrou para o top 5 europeu. «Após danos extensos na sua infraestrutura elétrica, o armazenamento em baterias emergiu como um ativo crítico para manter a estabilidade do sistema e garantir o fornecimento fiável de eletricidade», explica Sonja Risteska, responsável da plataforma Battery Storage Europe.
A entrada da Ucrânia no top 5 mostra como o armazenamento de energia se está a tornar uma questão de segurança energética e resiliência, e não apenas de transição ecológica. A Bulgária também entrou no top 5, demonstrando a diversificação geográfica do mercado.
Projeções: 138 GWh anuais em 2030, mas ainda aquém do necessário
O relatorio projeta que as instalações anuais ultrapassem os 50 GWh em 2026 e continuem a crescer até aos 138 GWh em 2030 — um aumento de quatro vezes face a 2025. No conjunto da UE-27, a frota total de baterias deverá crescer mais de seis vezes, para cerca de 470 GWh até ao final da década.
No entanto, estes números ficam aquém do necessário para cumprir os objetivos climáticos da UE. O cenário ideal exigiria um aumento de dez vezes na capacidade de baterias até 2030, alinhado com o estudo Solar+ da SolarPower Europe. A própria UE estabeleceu uma meta de 200 GW de armazenamento para 2030, mas o ritmo atual de instalação ainda não chega lá.
O que falta para acelerar
A SolarPower Europe pede à Comissão Europeia a adoção de um Plano de Ação para o Armazenamento em Baterias (Battery Storage Action Plan) com quatro eixos: 1) eliminar barreiras ao licenciamento e à ligação à rede; 2) garantir que os mercados elétricos recompensam o armazenamento; 3) criar condições de investimento estáveis, incluindo tarifas de rede justas; 4) alavancar instrumentos financeiros da UE para escalar a implantação.
O que significa para Portugal
Portugal é um dos países europeus com maior penetração de renováveis — 80,7% da eletricidade gerada em janeiro de 2026 veio de fontes renováveis. O Governo anunciou em maio um leilão para 750 MW de capacidade de armazenamento em baterias, com detalhes a serem divulgados a 29 de junho de 2026. Projetos como o BigBATT da EDP no Carregado (180 MW / 360 MWh) estão a preparar o terreno para que Portugal possa acompanhar o crescendo europeu e transformar o seu excedente renovável numa vantagem competitiva.
Até 2030, as baterias utility-scale deverão representar 75% da frota total de armazenamento europeia, consolidando-se como a espinha dorsal da integração de renováveis e da estabilidade da rede.
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