As baterias de ião-sódio são apontadas como a alternativa mais promissora ao lítio: o sódio é 500 vezes mais abundante na crosta terrestre, pode ser extraído em praticamente qualquer região do mundo e não depende das cadeias de abastecimento geopoliticamente sensíveis do lítio e do cobalto. Mas a grande questão tem sido sempre a mesma: serão capazes de competir com as baterias de lítio já maduras?
A resposta, segundo um estudo publicado na revista Cell Reports Physical Science, é um inequívoco sim — pelo menos ao nível da qualidade de fabrico. Investigadores do RWTH Aachen, na Alemanha, analisaram 120 células da bateria de ião-sódio fabricada pela chinesa Hina usando espectroscopia de impedância, raios-X e desmontagem física. O resultado surpreendeu-os: a consistência entre células e o design interno são comparáveis aos das baterias de ião-lítio da Tesla.
A consistência entre células é um dos indicadores mais importantes da qualidade de fabrico de baterias. As células da Hina surpreenderam os investigadores alemães pela sua uniformidade.
Tabless e coletor duplo: a arquitetura Tesla
Uma das descobertas mais notáveis do estudo foi o design interno da bateria Hina: as células utilizam um coletor duplo de alumínio e uma arquitetura tabless — ou seja, sem as abas condutoras tradicionais. Esta configuração reduz a resistência elétrica interna e promove uma distribuição mais uniforme da temperatura dentro da célula. Os investigadores notaram que este design é praticamente idêntico ao utilizado nas baterias 4680 da Tesla.
O design tabless foi introduzido pela Tesla em 2020 como uma das inovações centrais das suas baterias 4680, permitindo maior densidade de potência e melhor gestão térmica. O facto de um fabricante chinês de baterias de sódio o ter adotado com sucesso sugere que a tecnologia está a amadurecer mais rapidamente do que se esperava.
As baterias de ião-sódio podem custar significativamente menos que as de lítio, tornando os veículos elétricos e o armazenamento estacionário mais acessíveis.
O calcanhar de Aquiles: o frio
Embora a densidade energética seja inferior à das melhores baterias de lítio, as baterias de sódio têm uma vantagem importante: desempenho superior a baixas temperaturas. Ao contrário do lítio, que perde capacidade e tem dificuldades de carregamento no frio (risco de lítio plating), as baterias de sódio mantêm boa performance tanto em descarga como em carregamento a temperaturas negativas — uma caraterística que as torna particularmente atrativas para armazenamento estacionário em climas frios e para veículos elétricos em países com invernos rigorosos.
A densidade energética também é inferior à das melhores baterias de lítio, o que significa que, para a mesma massa, uma bateria de sódio armazena menos energia. No entanto, para aplicações de armazenamento estacionário (redes elétricas, armazenamento solar) e veículos de curto alcance (entregas urbanas, frotas municipais), esta limitação é menos relevante — e o custo mais baixo pode ser o fator decisivo.
Ângulo Portugal: a gigafábrica de Sines e o futuro do sódio
A notícia é especialmente relevante para Portugal. A CALB (China Aviation Lithium Battery) está a construir uma gigafábrica de baterias em Sines, num investimento de €2 mil milhões anunciado em junho de 2026. Embora a CALB seja conhecida pelas suas baterias de lítio, o mercado de baterias de sódio está a crescer rapidamente — espera-se que atinja $9,46 mil milhões até 2034, com uma taxa de crescimento anual de 19,2%.
Se a tecnologia de sódio amadurecer ao ritmo que este estudo sugere, Portugal pode vir a posicionar-se como hub de produção não apenas de baterias de lítio, mas também desta alternativa mais barata e abundante. O sal português, a posição geográfica para exportação e o investimento já anunciado em Sines criam condições únicas para o país não ficar de fora desta nova fileira.
Fonte: Siebert, C. et al. Cell Reports Physical Science (2026). DOI: 10.1016/j.xcrp.2026.103323. Divulgado por ScienceDaily a 21 de junho de 2026.
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