Cientista a trabalhar num laboratório de neurociência — investigação de novos fármacos para a Esclerose Múltipla
🔬 Ciência

Descoberta histórica: cientistas encontram molécula que repara nervos danificados pela Esclerose Múltipla

A Esclerose Múltipla (EM) afeta cerca de 3 milhões de pessoas em todo o mundo e é a segunda principal causa de incapacidade adquirida em adultos jovens. Até hoje, todos os tratamentos aprovados se limitavam a suprimir o sistema imunitário. Nenhum reparava o dano já causado. Agora, duas descobertas independentes podem estar a mudar esse paradigma. Um consórcio internacional identificou um fármaco já conhecido que promove a remielinação e protege os neurónios; em paralelo, a Universidade de Helsínquia descobriu duas moléculas que reparam a mielina por mecanismos diferentes.

A EM é uma doença autoimune em que o sistema imunitário ataca a mielina — a bainha protetora que envolve as fibras nervosas e permite a transmissão eficiente dos impulsos elétricos. À medida que a mielina se degrada, os sinais nervosos são interrompidos, causando sintomas que vão desde fadiga e perturbações visuais até perda de mobilidade e declínio cognitivo. Nas formas progressivas da doença, a degenerescência é contínua e irreversível.

Os tratamentos atuais funcionam como «um penso num cano a pingar»: reduzem a inflamação e abrandam a progressão, mas não reparam o que já foi destruído. O problema é particularmente grave nas formas progressivas, onde as lesões se acumulam ao longo dos anos e o sistema nervoso central desenvolve condições locais que bloqueiam ativamente a reparação natural.

Comparação entre um neurónio saudável (com bainha de mielina intacta) e um neurónio com mielina danificada na Esclerose Múltipla

À esquerda: neurónio saudável. À direita: neurónio com mielina danificada na EM. A degradação da mielina interrompe a transmissão dos sinais nervosos. (Mjeltsch, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons)

O avanço: bavisant

O consórcio internacional BRAVEinMS — que junta o San Raffaele (Milão), o Paris Brain Institute, a Universidade da Califórnia São Francisco (UCSF) e a Universidade de Münster — publicou a 21 de Janeiro de 2026 na revista Science Translational Medicine um estudo que pode mudar a forma como tratamos a EM. A equipa identificou o bavisant, um antagonista do recetor H3 da histamina originalmente desenvolvido para distúrbios do sono e PHDA, como capaz de atuar em três frentes simultaneamente: promove a remielinação, protege os neurónios da degenerescência e reduz a inflamação no sistema nervoso central.

Uma triagem entre 1.500 moléculas

O processo foi meticuloso: de uma biblioteca inicial de mais de 1.500 moléculas já aprovadas ou em ensaios clínicos para outras indicações, os investigadores usaram inteligência artificial e modelos celulares humanos para rastrear candidatos. Primeiro, 273 foram pré-selecionadas por computação in silico. Destas, 160 não eram tóxicas para neurónios e oligodendrócitos. Chegaram a 32 com ação promielinizante, depois a 6 finalistas testadas in vivo. O vencedor foi o bavisant.

A grande vantagem do bavisant é que, ao contrário de um fármaco inventado de raiz, já tem um perfil de segurança conhecido em humanos. Isto significa menos tempo, menos custos e menos riscos no desenvolvimento. O consórcio já recebeu financiamento adicional de 700 mil euros da International Progressive MS Alliance para continuar os estudos e preparar ensaios clínicos de Fase 2.

Laboratório de investigação científica com amostras e equipamento de análise

O rastreio de 1.500 moléculas combinou IA, modelos celulares humanos e animais. O bavisant emergiu como o candidato mais promissor.

Duas moléculas da Universidade de Helsínquia

Em paralelo, Tapani Koppinen, doutorando na Universidade de Helsínquia sob orientação da Prof. Merja Voutilainen, defendeu a 8 de Maio de 2026 a sua tese com a descoberta de duas moléculas distintas que também promovem a remielinação, publicadas em revistas científicas de renome.

Molécula 1 — C-MANF (Molecular Therapy, DOI: 10.1016/j.ymthe.2025.10.023)

A primeira abordagem atua sobre a resposta a stress celular (UPR — unfolded protein response), que fica cronicamente ativada nas áreas danificadas pela EM e impede as células de reparação de funcionar. A equipa construiu um fragmento da proteína MANF (apenas a parte final, designado C-MANF) que, quando injetado sob a pele, chega ao sistema nervoso central em ratinhos — algo que a proteína completa não consegue fazer por ser demasiado grande para atravessar a barreira hematoencefálica. Bloqueando este stress crónico, a remielinação acelera significativamente.

Molécula 2 — LMWP (Neuropharmacology, DOI: 10.1016/j.neuropharm.2025.110618)

A segunda abordagem foca-se no tecido cicatricial que se forma à volta das lesões. As moléculas de CSPG (chondroitin sulfate proteoglycans) depositam-se na matriz extracelular e criam uma barreira física à regeneração neural. A protamina de baixo peso molecular (LMWP) altera a composição dessa cicatriz, permitindo que a reparação prossiga. Surpreendentemente, apesar de mecanismos opostos, ambas as moléculas produziram resultados muito semelhantes: remielinação significativa e redução da neuroinflamação em modelos animais.

Conceito de medicina e ciência molecular com fundo escuro

As duas moléculas de Helsínquia atuam em alvos diferentes (stress celular e cicatriz) mas produziram resultados semelhantes: reparação da mielina e redução da inflamação.

O pipeline global da remielinação

O bavisant e as moléculas de Helsínquia não estão isolados. O candidato mais avançado é o PIPE-307 (da Contineum), já em ensaios clínicos de Fase 2 com 168 doentes com EM remitente-recorrente. Seguem-se o PTD802 (Pheno Therapeutics) e o FTX-101 (Find Therapeutics), ambos em Fase 1. Em fase pré-clínica há ainda o K102 (Cadenza Bio/UC Riverside) e os compostos CVL-1001/CVL-2001 (Convelo Therapeutics).

A diferença para tentativas falhadas do passado — como o opicinumab da Biogen, descontinuado em 2020 após falhar três ensaios de Fase 2 — é que agora há múltiplas abordagens a convergir ao mesmo tempo: stress celular, modificação da cicatriz, recetores muscarínicos, GPR17, histamina... Em vez de um único «tiro no escuro», temos um pipeline diversificado.

Riscos e prazos

É importante não criar falsas esperanças. O bavisant e as moléculas de Helsínquia estão ainda em fase pré-clínica — resultados em ratinhos e culturas celulares, não em humanos. O tecido humano é consideravelmente mais complexo, e muitos candidatos promissores em animais falharam na transição para humanos. A barreira hematoencefálica, embora ultrapassada nos modelos animais, continua a ser um desafio técnico. Mesmo que tudo corra bem, a chegada ao mercado deverá levar vários anos. Mas a direção é clara: estamos a assistir ao início de uma mudança de paradigma — passar de travar a doença para reparar o dano.

Para os leitores Portugueses

Estima-se que mais de 8.000 pessoas vivam com Esclerose Múltipla em Portugal, com cerca de 500 novos casos diagnosticados por ano. A Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla acompanha ativamente a evolução destas terapias. Embora nenhum destes tratamentos esteja disponível num horizonte próximo, a diversidade do pipeline atual é um sinal animador para os doentes Portugueses que aguardam opções terapêuticas que vão além da mera supressão dos sintomas.

1. Gacem, A., et al. (2026). In silico screening and preclinical validation identifies bavisant as therapeutic candidate for multiple sclerosis. Science Translational Medicine. DOI: 10.1126/scitranslmed.ads0633 2. Koppinen, T.K., et al. (2025). Modulation of the unfolded protein response with a C-terminal fragment of MANF facilitates recovery in models of multiple sclerosis. Molecular Therapy. DOI: 10.1016/j.ymthe.2025.10.023 3. Koppinen, T.K., et al. (2025). Low-molecular weight protamine enhances neuroprotection and remyelination by mitigating chondroitin sulfate proteoglycan inhibition in models of demyelination. Neuropharmacology. DOI: 10.1016/j.neuropharm.2025.110618 4. Paris Brain Institute — Press release, 4 Jun 2026 5. International Progressive MS Alliance — Press release, 21 Jan 2026 6. University of Helsinki / EurekAlert — Press release, Maio 2026

Fonte: Science Translational Medicine · Molecular Therapy · Neuropharmacology · 11 JUN 2026

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