Vista aérea do telhado de um centro de dados em obras, com dezenas de fileiras de unidades de arrefecimento brancas, geradores, passadiços metálicos e um parque de estacionamento ao lado.

Rsparks3 / Wikimedia Commons (CC0) — cobertura de um centro de dados com torres de arrefecimento e geradores de emergência

⚡ Energia

Quercus pede travão: 46 centros de dados em Portugal e 44 em avaliação

A associação ambientalista Quercus pediu a 13 de outubro ao Governo que trave o licenciamento de novos centros de dados até estarem reunidas condições para medir o que eles custam em água, energia e solo. A posição assenta em números que o próprio executivo confirmou: aos 46 centros de dados instalados no país — 25 em Lisboa e 11 no Porto — podem juntar-se 44 iniciativas em avaliação, quatro delas de grande dimensão. Localização, promotores e impacto continuam por divulgar.

Os números que existem

Centros de dados instalados46 (25 em Lisboa, 11 no Porto, 10 no resto do país)
Iniciativas em avaliação44, das quais 4 de grande dimensão
Cenário descrito pela Quercus90 centros de dados
Capacidade de TI planeada em Portugalmais de 2,6 GW, segundo a Colliers (1 389 MW só em Lisboa, contra 373 MW um ano antes)
EnquadramentoPlano Nacional de Centros de Dados, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026
Gráfico de barras com quatro colunas: Lisboa 25 centros de dados, Porto 11, resto do país 10 e 44 iniciativas em avaliação, destacadas a vermelho.

Onde estão os 46 centros de dados instalados e o que está em fila. Os 2,6 GW de capacidade planeada são uma estimativa de mercado da Colliers, não um número do Governo — e é precisamente essa contabilidade que a Quercus diz faltar.

O que a Quercus quer

  • Água: arrefecimento sem evaporação — circuito fechado ou extracção de humidade do ar com materiais porosos (MOFs) —, reutilização de água e prioridade a locais com mais água disponível e clima favorável.
  • Energia: produção renovável própria, total ou parcial, instalada em solo já artificializado, e obrigação de o promotor pagar a potência mínima contratada à rede durante 10 a 15 anos, use-a ou não.
  • Contrapartidas: contribuição anual para um fundo local proporcional ao consumo, destinada a consumidores vulneráveis e à transição energética; reforço de rede a cargo do promotor.
  • Território: novas renováveis para alimentar estes centros em solo já artificializado, com participação obrigatória de municípios e cooperativas, e compensação ambiental com as comunidades locais.
  • Capacidade pública: reservar parte da capacidade de cálculo a universidades, startups e serviços públicos.
  • Fim de vida: caução de desmantelamento e reposição do local, com triagem de materiais para reutilização e reciclagem.

A Quercus lista ainda os riscos que associa à expansão — consumo e contaminação de água, pressão sobre solos agrícolas e florestais, alteração da paisagem, emissões de gases com efeito de estufa que diz serem 57% mais elevadas do que se estimava, ruído e subida da temperatura local pelo arrefecimento por evaporação — e lembra casos de subida de tarifas de energia em comunidades locais na Irlanda e nos Países Baixos.

É necessário exigir precaução e um abrandamento do investimento na criação destas infra-estruturas que alimentam a inteligência artificial. Alguns países que traçaram este caminho antes de nós vêem-se agora forçados a recuar e remediar os erros cometidos. Portugal tem que aprender com a experiência internacional, para não correr sérios riscos económicos, sociais e ambientais.

— Mariana Garanhão, técnica de políticas públicas e relações externas da Quercus

O que o Governo já decidiu — e o que mantém fechado

O enquadramento existe desde abril, com o Plano Nacional de Centros de Dados aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026: 15 iniciativas prioritárias para 2026-2027, com a AICEP a assumir o papel de ponto único de contacto para investidores. Em setembro, o executivo confirmou os 44 processos e revelou ter criado cauções progressivas para travar pedidos especulativos de potência à rede — um mecanismo que obriga quem reserva capacidade a assumir parte do custo. O que o Governo não divulgou foi onde ficam esses projectos, quem são os promotores e qual o impacto previsto.

Portugal passou, em poucos meses, de um mercado promissor a um problema de política energética: a capacidade pedida já se mede em gigawatts e o que falta não é vontade de investir — é saber quem paga a rede, a água e o desmantelamento quando os aparelhos se desligarem.

Onde é que isto já se sentiu

Não é um debate abstracto. Em Abrantes, o movimento proTEJO exigiu limites de água e energia para os projectos previstos no concelho, e a discussão local precedeu a nacional. A diferença agora é de escala: os 2,6 GW de capacidade de TI planeada que a Colliers contabiliza para Portugal colocam estes centros, em conjunto, ao nível de infraestrutura energética de interesse estratégico — e não de um parque empresarial.

A água é o ponto onde a Quercus mais insiste, e não por acaso: grande parte da refrigeração instalada no mundo evapora água, e as alternativas que a associação propõe — circuito fechado e extracção de humidade do ar — são mais caras em energia. Escolher entre gastar água e gastar electricidade é a decisão concreta que cada um destes 44 processos vai ter de tomar.

O que ainda não se sabe

Falta quase tudo o que permitiria decidir com números: a localização e a dimensão de cada uma das 44 iniciativas, os promotores, o calendário e os estudos de impacto. Também não é público quantas das 44 têm contrato assinado e quantas são apenas manifestações de interesse — que é a diferença entre uma fila de investimento e uma reserva de potência. E o valor de 2,6 GW não vem do Governo: é uma estimativa de mercado da Colliers, o que reforça o pedido de contabilidade pública que a Quercus faz.

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