O dia 16 de julho de 2026 ficará marcado como um dos mais importantes da história recente da aviação militar europeia. Num único dia, o Reino Unido revelou três desenvolvimentos de fundo que redefinem o mapa do poder aéreo no continente: o lançamento oficial do programa de caças não-tripulados Storm Fighter (Collaborative Combat Aircraft, CCA), a confirmação da adesão do Canadá como observador ao programa GCAP (Global Combat Air Programme) de caça de sexta geração, e um investimento de €300 milhões para financiar 16 caças Saab Gripen E para a Ucrânia. Os três anúncios, embora distintos, partilham um denominador comum: a aposta do Reino Unido numa nova arquitetura de combate aéreo baseada na colaboração entre plataformas tripuladas e não-tripuladas, na abertura do programa GCAP a novos parceiros, e no reforço da capacidade aérea ucraniana como prioridade estratégica imediata.
Storm Fighter: o 'cão de ataque' não-tripulado da RAF
O ministro da Defesa britânico para a Prontidão e Indústria, Luke Pollard, anunciou durante a Global Air and Space Chiefs' Conference, em Londres, que o programa de aeronaves colaborativas de combate (CCA) da Força Aérea Real (RAF) passa a designar-se oficialmente Storm Fighter. O programa contempla pelo menos dois novos projetos de aeronaves não-tripuladas que atuarão como "anjo da guarda" e "cão de ataque" para os caças tripulados da RAF — os Typhoon, os F-35 e o futuro Tempest.
Segundo Pollard, o Storm Fighter permitirá à RAF tornar-se "a primeira força aérea de sexta geração da Europa". As aeronaves não-tripuladas serão desenvolvidas no Reino Unido e integradas primeiro nos Typhoon e F-35 existentes, mas otimizadas para o futuro Tempest, o caça de sexta geração do programa GCAP.
Storm Fighter será o primeiro CCA operacional da RAF, atuando como 'anjo da guarda' e 'cão de ataque' para caças tripulados Typhoon, F-35 e Tempest. Fonte: BAE Systems / TWZ
Canadá junta-se ao GCAP como observador — e Portugal pode ser o próximo
No mesmo dia, foi confirmado que o Canadá chegou a acordo para se juntar ao Global Combat Air Programme (GCAP) como observador. O anúncio formal deverá ser feito durante o Farnborough International Airshow, que decorre entre 20 e 24 de julho. O estatuto de observador não implica qualquer compromisso financeiro ou de aquisição, mas dá a Ottawa acesso a dados classificados do programa e a capacidade de avaliar a viabilidade técnica, operacional e industrial do futuro caça.
O GCAP é o programa trilateral Reino Unido-Itália-Japão para desenvolver um caça de sexta geração de configuração delta, com entrada ao serviço prevista para 2035. Os três parceiros fundadores assinaram recentemente um contrato de £4,6 mil milhões (€5,4 mil milhões) para a próxima fase de desenvolvimento, e criaram a Edgewing, uma joint venture da BAE Systems, Leonardo e Japan Aircraft Industrial Enhancement Co., para liderar o projeto. A organização internacional do programa (GIGO) tem sede em Reading, Inglaterra.
A adesão do Canadá ao GCAP como observador insere-se numa estratégia mais ampla de Ottawa para diversificar as suas parcerias de defesa para além dos Estados Unidos. O Canadá mantém uma encomenda de 16 F-35A e está a avaliar a aquisição de mais 72 aeronaves, mas a abertura ao GCAP sinaliza que o país quer manter opções abertas para a próxima geração de caças.
O GCAP terá configuração delta, ausência de cauda vertical e capacidades furtivas de última geração, com entrada ao serviço prevista para 2035. Fonte: Wikipedia / Tokyo Big Sight 2024
€300 milhões para 16 Gripen E na Ucrânia
O terceiro anúncio do dia chegou diretamente de Kyiv, onde o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, se deslocou para se reunir com o presidente Volodymyr Zelenskyy. Starmer anunciou um investimento de €300 milhões (cerca de £300 milhões ou $405 milhões) para apoiar a aquisição de 16 caças Saab Gripen E para a Ucrânia, com entregas previstas a partir de 2029.
O pacote inclui a construção das aeronaves, formação de pilotos e engenheiros ucranianos, simuladores, peças sobressalentes e equipamento de operação. O contrato de aquisição dos 16 Gripen E foi assinado entre a Saab e a Agência Sueca de Material de Defesa (FMV) a 30 de junho de 2026, num valor total de aproximadamente $2,45 mil milhões. A contribuição britânica cobre parte do financiamento, com a União Europeia a assegurar o resto através de crédito de apoio.
"Hoje, o nosso investimento ajudará a colocar caças Gripen avançados nos céus ucranianos, fortalecendo a sua capacidade de defender o país, enquanto apoia milhares de empregos altamente qualificados aqui em casa", afirmou Starmer durante a conferência de imprensa conjunta em Kyiv. A construção dos Gripen envolve mais de 50 empresas britânicas — da Saab UK em Fareham à Leonardo UK em Edimburgo — e sustenta cerca de 5.000 empregos no Reino Unido.
Além dos 16 Gripen E de nova construção, a Suécia planeia doar até 16 caças Gripen C/D da sua frota atual para a Ucrânia, com as primeiras aeronaves esperadas para 2027. No total, o programa ucraniano de modernização da força aérea poderá envolver até 32 Gripen de diferentes versões, juntando-se aos F-16 já fornecidos pela Bélgica, Dinamarca e Países Baixos, e aos Mirage 2000 franceses.
O Gripen E está equipado com radar AESA (Active Electronically Scanned Array), sistema de busca e rastreio por infravermelhos (IRST), guerra eletrónica avançada e o motor GE F414G. A sua capacidade de operar a partir de pistas curtas e autoestradas, com equipas de solo reduzidas, torna-o particularmente adequado às necessidades operacionais da Ucrânia.
— Ministério da Defesa do Reino Unido
O Saab Gripen E (n.º 6003) é a mais recente versão do caça monomotor sueco. O UK comprometeu €300M para 16 aeronaves destinadas à Ucrânia. Fonte: Airwolfhound / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Uma nova arquitetura de poder aéreo europeu
Os três anúncios de 16 de julho de 2026 desenham, em conjunto, uma nova arquitetura de poder aéreo europeu que assenta em três pilares: dronização dos caças tripulados (Storm Fighter CCA), expansão do clube de sexta geração (Canadá no GCAP) e reforço imediato da capacidade aérea ucraniana (Gripen E). O Reino Unido posiciona-se como o centro gravitacional desta transformação, combinando ambição tecnológica, abertura a parceiros e ação concreta no terreno.
Para Portugal, que em 2026 atingiu pela primeira vez os 2,01% do PIB em despesas de defesa e tem manifestado interesse em programas de caças de nova geração, estes desenvolvimentos criam oportunidades e pressões. A Força Aérea Portuguesa opera atualmente F-16 Block 42 — os mesmos usados nos testes de combate aéreo autónomo da DARPA com seis aeronaves em voo — e enfrenta a decisão estratégica de se alinhar com o eixo GCAP (Reino Unido-Itália-Japão) ou com o FCAS (França-Alemanha-Espanha). O precedente canadiano de adesão como observador pode ser o modelo que Portugal seguirá já nos próximos meses.
Timeline resumida: 2027 — demonstrador Storm Fighter a voar com Typhoon · 2027 — primeiros Gripen C/D suecos na Ucrânia · 2029 — primeiros Gripen E na Ucrânia · 2035 — entrada ao serviço do GCAP · 2035+ — integração plena Storm Fighter + Tempest
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