Dispositivo de dessalinização solar desenvolvido na Universidade de Rochester
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Novo método de dessalinização solar produz água potável sem desperdício e extrai lítio

A água do mar cobre 70 por cento da superfície do planeta, mas 2,2 mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável segura. No meio deste paradoxo, uma equipa de investigadores da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, acaba de apresentar uma solução que pode mudar o paradigma da dessalinização: um sistema movido a energia solar que converte água salgada em potável sem químicos, sem deixar salmoura tóxica para trás, e que ainda aproveita os sais para extrair lítio — um dos minerais mais estratégicos do século XXI.

O sistema, descrito numa publicação científica na revista Light: Science & Applications, assenta numa placa de metal negro gravado com lasers de femtossegundos — pulsos de luz tão curtos que duram um milionésimo de mil milionésimo de segundo. Esta gravação cria uma superfície superabsorvente de luz e supercapilar, que puxa uma camada finíssima de água do mar para cima do painel, absorve quase toda a radiação solar, destila a água e deposita os sais e minerais residuais nas zonas laterais não tratadas do painel — as chamadas regiões passivas.

É aqui que reside a grande inovação. Nos sistemas de dessalinização solar tradicionais, os sais acabam por entupir a superfície ativa ao fim de poucas horas, porque os cristais de magnésio e cálcio — que existem em abundância na água do mar real — formam uma crosta dura e não porosa que bloqueia a passagem da água. A equipa do Professor Chunlei Guo resolveu este problema usando o mesmo fenómeno físico que deixa aquela marca em forma de anel quando se derrama café: o coffee ring effect.

Professor Chunlei Guo com o dispositivo de dessalinização solar no laboratório da Universidade de Rochester

O Professor Chunlei Guo e a sua equipa demonstraram o sistema com amostras de água dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. Foto: University of Rochester.

"Se deixares cair café numa superfície, eventualmente a água evapora-se e fica um anel no bordo exterior com as partículas concentradas de café. Nós usamos o mesmo princípio para empurrar os sais para a região passiva."

— Chunlei Guo

Professor de Ótica e Física na Universidade de Rochester e investigador sénior no Laboratory for Laser Energetics

O fim da salmoura tóxica

Uma das maiores críticas ambientais à dessalinização convencional é a produção de salmoura — uma sopa concentrada de sal e químicos que é devolvida ao mar e que destrói ecossistemas marinhos num raio de quilómetros à volta dos pontos de descarga. A dessalinização por osmose inversa, a tecnologia mais usada no mundo, produz cerca de 1,5 litros de salmoura por cada litro de água potável que gera.

O sistema de Rochester não produz salmoura nenhuma. Em vez disso, extrai praticamente 100 por cento dos sais na forma sólida, que podem ser recolhidos e reutilizados. Isto não só elimina o problema ambiental da salmoura como abre a porta à produção de sal comum e, mais importante, à extração de minerais valiosos — incluindo o lítio.

Solo seco e rachado em época de seca

Portugal enfrenta secas recorrentes, especialmente no Algarve e no Alentejo, onde a falta de água ameaça a agricultura e o abastecimento público.

Lítio da água do mar — o ouro branco do século XXI

A extração de lítio a partir de salmoura natural é um processo lento e intensivo em recursos. As salinas do Salar de Atacama, no Chile, e do Triângulo do Lítio, na Argentina, bombeiam água salgada do subsolo e deixam-na evaporar ao sol durante meses até obterem concentrações suficientes de lítio. Mesmo assim, o processo tem um impacto ambiental significativo e consome enormes quantidades de água doce.

A equipa de Guo testou o sistema com amostras de água do Great Salt Lake, nos Estados Unidos, um dos lagos salgados mais famosos do mundo, e conseguiu extrair cerca de 50 por cento do lítio presente nos sais deixados pelo processo de dessalinização. "A mineração de lítio a partir da terra é muito intensiva do ponto de vista energético e ambiental", explica Guo. "Por isso, extrair lítio diretamente da água salgada pode ser uma via muito importante no futuro."

Portugal tem uma das maiores reservas de lítio da Europa, com depósitos identificados em Montalegre, Arga e Gonçalo (Guarda). Num país onde a seca se agrava todos os anos e onde a costa atlântica oferece sol praticamente todo o ano, uma tecnologia destas pode fazer a ponte entre dois problemas estratégicos: a falta de água no Algarve e a necessidade de refinar lítio sem destruir o território.

Para Portugal, as implicações são particularmente promissoras. O país enfrenta secas cada vez mais severas — o Algarve e o Alentejo vivem com reservas de água stressadas, e o IPMA tem registado anos consecutivos com níveis de seca preocupantes em grande parte do território. Uma tecnologia de dessalinização que não consome energia elétrica (apenas sol), não produz poluentes e ainda extrai lítio — que Portugal tem em abundância — pode ser uma peça-chave para a segurança hídrica e energética do país.

Paisagem seca e árida no interior de Portugal

O interior de Portugal sofre com a seca prolongada. Uma solução de dessalinização solar de baixo custo pode ser a resposta para as regiões mais afetadas.

O Professor Guo acredita que a tecnologia é intrinsecamente escalável. O protótipo atual é um dispositivo de pequena escala, mas como o princípio é baseado em superfícies tratadas a laser — um processo que já é usado industrialmente — não há barreiras fundamentais à produção em massa. Se o sol não custa nada e a água do mar é gratuita, o custo operacional de cada litro de água potável pode ser drasticamente inferior ao da dessalinização por osmose inversa, que consome entre 3 e 5 quilowatts-hora por metro cúbico de água.

Claro que há um caminho até à comercialização. O protótipo está em fase de prova de conceito, e a escala de produção — dos painéis de laboratório para campos de painéis solares-dessalinizadores — vai exigir investimento e parcerias industriais. Mas a direção está traçada: transformar um dos maiores problemas da dessalinização — o entupimento por sais — numa vantagem que gera recursos valiosos em vez de resíduos.

Para os leitores Portugueses, esta notícia deve ser lida com atenção redobrada. Portugal tem dois trunfos que poucos países têm: uma das maiores reservas de lítio da Europa e uma costa atlântica que recebe sol durante mais de 300 dias por ano. Se a tecnologia de Rochester chegar ao mercado — e tudo indica que pode —, o país pode estar sentado numa mina dupla: a da água potável e a do lítio limpo. E desta vez, sem pagar o preço ambiental que outras formas de mineração impõem.

Feito por humanos — Portugal Binário

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