A Google fez algo que não fazia há 25 anos: mudou a caixa de pesquisa. Os tradicionais "10 links azuis", que conhecemos desde os tempos do dial-up e do Internet Explorer, deram lugar a respostas escritas por inteligência artificial, geradas no momento pelo modelo Gemini. Para quem faz três, quatro ou vinte pesquisas por dia — e em Portugal, isso é praticamente toda a gente com um smartphone na mão —, a experiência mudou sem aviso prévio, sem manual de instruções e, mais importante, sem que tivesse havido discussão pública sobre o que isso significa.
Os AI Overviews, como a Google lhes chama oficialmente, estrearam-se nos Estados Unidos ainda no verão de 2024, mas foi este mês que a empresa acelerou a expansão global. Liz Reid, vice-presidente do Google Search, anunciou que a funcionalidade chegará a mais de mil milhões de pessoas até ao final do ano. O modelo Gemini analisa a pergunta do utilizador, consulta múltiplas fontes e devolve um resumo sintetizado em segundos — e os links de sempre, aqueles que durante décadas foram o resultado principal de qualquer pesquisa? Esses ficam relegados para segundo plano, num rodapé que a maioria dos utilizadores nunca chegará a consultar.
A mudança é subtil para quem está do lado de lá do ecrã, mas é das mais profundas desde que Larry Page e Sergey Brin criaram o algoritmo PageRank em 1998. O New York Times descreveu-a como "a primeira grande alteração à caixa de busca em 25 anos". A WIRED foi mais incisiva: "mesmo que odeies AI, vais usar a Google AI Search." Porque está lá, incorporada no produto que centenas de milhões de pessoas usam diariamente, e não há alternativa à vista com escala comparável. A NPR colocou a questão de forma certeira: "perguntas à AI ou pesquisas no Google?" — como se a fronteira entre as duas coisas já não existisse.
O preço da conveniência
A inteligência artificial promete respostas mais rápidas — mas a quem custa esta conveniência? Foto: Markus Spiske / Unsplash
Se para o utilizador comum receber uma resposta direta em vez de ter de navegar por meia dúzia de sites parece uma benesse — e é, ninguém discute a utilidade —, para quem vive do tráfego orgânico gerado pelas pesquisas o cenário é radicalmente diferente. A Axios cunhou uma expressão que está a ecoar nos meios editoriais: "o fim da idade de ouro da internet." E não é difícil perceber porquê. Se a Google responde à pergunta antes de o utilizador sair da página de resultados, quem vai clicar nos links dos editores? Quem vai visitar os sites que produzem o conteúdo que a Google está a resumir?
A Google garante que os Overviews geram mais cliques para os sites referenciados. Liz Reid afirmou à WIRED que "os links incluídos nos AI Overviews recebem mais cliques do que se a página tivesse aparecido como um resultado tradicional para essa pesquisa". Mas os números, por enquanto, são os que a própria Google apresenta — e ninguém os pode verificar de forma independente. A desconfiança dos publishers não é infundada: estamos a falar de uma empresa que detém mais de 90 por cento do mercado global de pesquisa e que, de um dia para o outro, reescreveu as regras do jogo sem consultar os outros jogadores.
O que muda em Portugal
A página inicial do Google em português — o primeiro passo de uma pesquisa que, até agora, terminava sempre fora da Google. Foto: Nathana Rebouças / Unsplash
Em Portugal, o impacto é particularmente silencioso, mas não menos real. O país tem uma das taxas de utilização da Google mais altas da Europa — mais de 95 por cento do mercado de pesquisa está nas mãos da empresa de Mountain View, segundo dados do StatCounter. Isto significa que pequenos projetos editoriais, blogs de nicho, sites de informação regional e até lojas online, que dependem do tráfego orgânico para sobreviver, vão sentir o aperto sem terem poder negocial ou alternativas viáveis para reagir.
Ao contrário do que aconteceu com atualizações de algoritmo do passado — o famoso Panda, o Penguin, o Hummingbird —, desta vez não há "SEO fix" possível. O problema não é estar bem posicionado nos resultados de pesquisa; o problema é os resultados, como os conhecíamos, terem deixado de existir. Já não se trata de otimizar títulos, meta descriptions ou backlinks. Trata-se de a Google ter decidido que a resposta é mais importante do que o caminho até ela — e que o caminho, afinal, pode ficar dentro de casa.
Ficamos com o paradoxo: quando a resposta é mais importante do que a viagem até lá, o que resta da descoberta? Daquela busca que nos levava a um artigo que nunca tencionávamos ler, a um fórum com uma opinião diferente da nossa, a um site pequeno que ninguém conhecia mas que tinha exatamente a informação certa? A Google promete respostas mais rápidas e mais precisas. Mas a pergunta que ninguém respondeu ainda é esta: quem vai continuar a produzir o conteúdo que alimenta essas respostas?
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