Família reunida à volta de uma televisão em 1958 — o ecrã que unia a sala de estar
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A última geração que confiou nos média

Havia um tempo em que a televisão ocupava o centro da sala de estar. Não era um objeto entre muitos — era o móvel principal, muitas vezes com uma toalha bordada por cima, quase como um altar. As famílias programavam a vida em função dos horários da RTP. O «Jornal Nacional» era um ritual: o jantar à mesa, a loiça arrumada, e depois todos sentados no sofá, em silêncio, a ver o que Fernando Pessa, Maria Elisa ou mais tarde José Rodrigues dos Santos tinham para contar. Não havia alternativas — a RTP deteve o monopólio da televisão em Portugal até 1992. Mas também não havia dúvidas. O que saía do ecrã era verdade, ponto final.

Mão a escrever com caneta num caderno

A 7 de março de 1957, Fernando Pessa fez a primeira transmissão ao vivo da televisão portuguesa. Foram precisos mais 23 anos para a cor chegar, a 10 de março de 1980. Até lá, o mundo via-se a preto e branco. Mas o que importava não era a paleta de cores — era a credibilidade. Walter Cronkite, o apresentador do CBS Evening News que durante 19 anos foi considerado «o homem mais confiável da América», fechava os seus noticiários com uma frase que hoje parece de outro planeta: «And that's the way it is.» E era assim mesmo. Nos anos 60, quando Cronkite falou contra a guerra do Vietname, Lyndon B. Johnson terá dito: «Se perdi o Cronkite, perdi a América.» A influência de um jornalista era tal que podia mudar o rumo de uma guerra.

Das máquinas de escrever aos ecrãs tácteis — o que ficou pelo caminho

As redações de outrora eram um ecossistema próprio. O som das máquinas de escrever Olivetti e Underwood a bater em staccato, o cheiro a papel químico e a tinta de impressão, as secretárias de madeira cobertas de jornais amarelecidos. Os jornalistas vestiam fatos e gravatas mesmo em dias de 40 graus, e os repórteres de imagem carregavam câmaras Umatic de 16 quilos às costas. Eram cassetes de vídeo Betacam, rolos de filme de 35mm e microfones de braço da Emissora Nacional que pareciam saídos de um filme dos anos 40.

Era um tempo em que apurar um facto demorava horas — chamadas telefónicas para três fontes diferentes, a ficha do arquivo consultada à mão, a confirmação por escrito. O jornalista Edward R. Murrow, que transmitiu de Londres durante os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial com o som das sirenes a estilhaçar o éter, definia o ofício como «o último reduto daqueles que acreditam que a verdade pode mudar o mundo». E durante muito tempo, acreditou-se mesmo nisso.

Jornalista a escrever notas

Em Portugal, o Diário de Notícias — fundado a 29 de dezembro de 1864, há 161 anos — foi o jornal de referência que registou cada viragem da história do país. Eça de Queirós foi correspondente em Londres nos anos 1880, e Mário Soares, antes de ser primeiro-ministro e presidente da República, foi jornalista e usou a palavra como arma de resistência ao Estado Novo. O jornalismo e a democracia cresceram de mãos dadas, numa simbiose que parecia inquebrável.

Máquina de escrever antiga Imperial Model 60 numa mesa de madeira

As máquinas de escrever Olivetti e Underwood eram o som das redações — um staccato que anunciava a verdade a cada tecla. Foto: Pixabay

A confiança que se perdeu pelo caminho dos cliques

Depois, o modelo rebentou. A publicidade migrou para o Google e para a Meta. Os jornais que durante décadas viveram dos anúncios de meia página viram a receita evaporar-se da noite para o dia. A solução encontrada foi a mais curta de vistas possível: produzir mais, mais depressa, a qualquer custo. O clickbait substituiu o título informativo. O «viral» passou a valer mais do que o relevante. A ética jornalística foi trocada pela velocidade de publicação, e a verdade tornou-se negligenciável se o título fosse suficientemente escandaloso.

Os dados são impiedosos. O Reuters Institute Digital News Report de 2025 revela que a confiança nos média portugueses caiu para 54% — o valor mais baixo da última década. Em 2015, primeiro ano em que Portugal entrou no relatório, a confiança era de 66%. Doze pontos perdidos em dez anos. Entre os 48 mercados analisados, a média global é de apenas 40%. A Finlândia lidera com 67%; a Hungria e a Grécia fecham a tabela com 22%. Portugal, apesar da queda, ainda se mantém no 7.º lugar. Mas a tendência é clara e não admite otimismo.

O Edelman Trust Barometer de 2024 foi mais direto ainda: «Media is actively distrusted.» Os média são ativamente desconfiados. Não é indiferença — é desconfiança ativa. Em 2025, o mesmo relatório revelou que 61% dos inquiridos globais sentem um ressentimento moderado ou elevado em relação às instituições. Em 2026, o tema foi «Trust Amid Insularity»: 70% das pessoas no mundo não estão dispostas a confiar em alguém com valores diferentes dos seus, e o mundo recua para círculos cada vez mais fechados.

A contradição suprema é esta: as pessoas consomem mais notícias do que nunca, mas confiam menos nas fontes. O consumo de informação nunca foi tão alto — YouTube, TikTok, Instagram, podcasts, newsletters, chatbots de IA — mas a confiança nos media tradicionais está em queda livre. Os jovens, em particular, «têm uma relação complexa com as notícias, moldada pela sua dependência de plataformas como Instagram, YouTube e TikTok, que enfraquece a sua ligação aos media tradicionais», escrevem os autores do relatório do Reuters Institute para Portugal, Ana Pinto-Martinho, Miguel Paisana e Gustavo Cardoso.

O paradoxo que ninguém quer resolver

Em Portugal, apenas 10% da população paga por notícias online. O resto consome o que aparece no feed, de graça, entre stories e vídeos de gatos. Os grupos de média nacionais — Impresa e Global Media — reportaram perdas massivas. O Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, dois dos títulos mais antigos do país, enfrentaram cortes salariais e salários em atraso. Em março de 2024, mais de 40 órgãos de comunicação social portugueses aderiram a uma greve histórica do Sindicato dos Jornalistas contra salários baixos, contratos precários e condições de trabalho degradantes.

Walter Cronkite na CBS em 1974, o homem mais confiável da América

Walter Cronkite no CBS Evening News, 1974. Um homem cuja palavra encerrava discussões e cuja influência mudou o curso de uma guerra.

As câmaras são hoje digitais e cabem no bolso. As máquinas de escrever estão em museus. Os microfones são lapelas do tamanho de uma unha. E a roupa dos pivots já não é o fato sóbrio de Cronkite — é o casaco desportivo, a camisa aberta, a informalidade de quem quer ser mais amigo do que informador. O jornalista já não é aquela figura distante e respeitada que entrava nas salas de estar como convidado de honra. É um entre muitos criadores de conteúdo, a competir pela atenção num ecrã que também mostra jogos, séries e anúncios.

Sacrificou-se uma história de serviço público à humanidade em troca do viral e do clique fácil, sem olhar a consequências. O Reuters Institute confirma que os alertas com títulos sensacionalistas (clickbait) são rejeitados pelo próprio público. As audiências querem informação relevante, mas o modelo de negócio obriga a produzir quantidade, não qualidade. O algoritmo recompensa o escândalo, não a profundidade. E a ascensão dos influencers e personalidades online como fonte de informação — vistos como a maior ameaça de desinformação, a par dos políticos nacionais — só veio agravar o problema.

Jornal e smartphone sobre uma mesa rústica

O jornal e o smartphone na mesma mesa — o passado e o presente do consumo de informação no mesmo enquadramento.

A RTP, que apresentou lucro pelo 14.º ano consecutivo em 2024, continua a ser a marca mais confiável em Portugal. O serviço público resiste, apesar de todas as pressões. Talvez porque nunca tenha tido de competir pelo clique da mesma forma. Talvez porque ainda mantenha, no seu ADN, qualquer coisa daquele espírito de 7 de março de 1957, quando Fernando Pessa ligou o microfone e o país inteiro parou para ouvir.

A tecnologia mudou os média. As câmaras, as máquinas de escrever, os microfones, a roupa — tudo evoluiu. O que devia ter evoluído também era a relação entre quem informa e quem é informado. Mas essa relação partiu-se.

Ficamos com o paradoxo: quando a verdade se tornou uma questão de gosto, e a informação um produto como outro qualquer, o que resta daquela sala de estar onde todos se sentavam em silêncio a ouvir o noticiário? A tecnologia prometeu aproximar-nos. Deu-nos o mundo inteiro num ecrã de bolso. Mas tirou-nos qualquer coisa que não tinha preço — a certeza de que, quando alguém falava, podíamos confiar.

As pessoas dizem que já não confiam nos média. E os estudos, ano após ano, confirmam que sim. Mas continuamos a consumir, a partilhar, a comentar, a clicar. Talvez porque, no fundo, ainda procuremos qualquer coisa daquela voz familiar que nos guiava. Talvez porque, apesar de tudo, ainda queiramos acreditar que vale a pena esperar pela verdade. O que é difícil de engolir é que, desta vez, o «and that's the way it is» já não existe. E ninguém parece disposto a trazê-lo de volta.

Fonte: Reuters Institute, Edelman · 25 mai 2026

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