Paisagem de encostas graníticas com olival em primeiro plano, uma aldeia de casas brancas com telhado de telha no meio e, ao fundo à esquerda, um cabeço rochoso com um povoado no topo, sob céu azul com nuvens.

Idanha-a-Velha, no concelho de Idanha-a-Nova, com a serra de Monsanto ao fundo. Fotografia de Quistnix (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5), de 2008 — não mostra o parque solar.

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O parque solar Sophia encolheu 34% — e a meta de 2030 não

A Lightsource bp entregou a 2 de Outubro à Agência Portuguesa do Ambiente a versão reformulada do parque solar Sophia, e essa proposta está em consulta pública até 21 de Outubro. A central passa de 867 para 573 MWp de potência instalada, e a área ocupada por painéis desce de 390 para 250 hectares.

O corte não veio de uma decisão isolada do promotor: resulta do artigo 16.º do regime de avaliação de impacte ambiental, que permite redesenhar um projecto depois de um parecer desfavorável da Comissão de Avaliação e antes da decisão final. O Resumo Não Técnico entregue agora di-lo sem rodeios — a reformulação acontece «após um parecer desfavorável da Comissão de Avaliação», emitido em Janeiro.

ProjectoCentral Solar Fotovoltaica de Sophia e linha de muito alta tensão associada (LMAT)
ProcedimentoAIA n.º 3800, estudo prévio reformulado (artigo 16.º)
PromotorLightsource bp (100% detida pela bp); sociedade do projecto Coloursflow – Unipessoal, Lda.
ConcelhosIdanha-a-Nova e Penamacor (painéis) e Fundão (ligação à subestação)
Potência867 MWp → 573 MWp (−34%)
Área de painéis390 ha → 250 ha (−36,1%)
Consulta pública8 a 21 de Outubro de 2026, no portal Participa.pt
Decisão ambiental (DIA)prevista para o 1.º trimestre de 2027, data indicativa do promotor

O que mudou

Comparado com o estudo submetido em Outubro de 2025, o parque perde 140 hectares de painéis, 560 hectares de área vedada e 24 dos 46 núcleos vedados que a proposta original previa. As duas linhas de 400 kV passam a uma, e as linhas aéreas de média tensão desaparecem: eram oito quilómetros que deixam de existir.

O Fundão sai da área da central, mas mantém-se no projecto pela ligação à subestação local. O promotor apresenta duas alternativas de traçado, norte e sul, garante que só uma será construída e que a norte acompanha, em cerca de 70% do percurso, linhas eléctricas já existentes.

A reformulação também muda o chão onde os painéis ficam: 70% da área passa a estar em eucaliptal, contra 50,7% na versão anterior, e o promotor promete 40 000 árvores a plantar — 13 000 mais do que antes — além da contagem de oliveiras e de um plano de estrutura verde.

Gráfico de barras com seis indicadores do parque solar, cada um comparando o valor do EIA de Outubro de 2025 com o da proposta reformulada de Outubro de 2026: potência instalada, 867 para 573 MWp; área de painéis, 390 para 250 hectares; área vedada, 1 737 para 1 177 hectares; núcleos vedados, 46 para 22; linhas de 400 kV, duas para uma; árvores a plantar, 27 000 para 40 000.

Os seis indicadores que o promotor compara entre o EIA de Outubro de 2025 e a proposta reformulada. Barras normalizadas por linha; dados do Resumo Não Técnico de 2 de Outubro de 2026.

Uma consulta com 12 700 participações

O processo não é novo nem pacífico. A consulta pública de Outubro de 2025 recebeu cerca de 12 700 participações, segundo o relatório da APA. O documento resume-as: juntas de freguesia contra o traçado, receios sobre campos electromagnéticos e desvalorização de casas, perda de solo agrícola, de floresta e de paisagem.

A Câmara de Idanha-a-Nova chamou à reformulação «uma ilusão de cedência» e reafirmou que «o concelho não está à venda». O Centro PINUS, da fileira do pinheiro-bravo, deu parecer desfavorável e pediu alternativas que reduzam a desflorestação. Associações e movimentos invocaram a Convenção de Aarhus por causa dos prazos.

No mesmo distrito, o promotor abandonou em Setembro a Central Solar da Beira, de 266 MW, prevista para Castelo Branco e Idanha-a-Nova, alegando falta de viabilidade financeira depois de um parecer ambiental negativo. Idanha-a-Nova leu a desistência como prova de que «a escala destas instalações atropela a realidade local».

O Sophia encolheu 34%; a meta solar de 2030 não. O Plano Nacional de Energia e Clima exige cerca de 11 400 MW solares adicionais até ao fim da década, e o país continua sem resposta para onde os instalar — este processo mostra o custo, em tempo e em conflito, de decidir isso caso a caso.

O que a reformulação não resolve

A Plataforma pela Defesa do Parque Natural do Tejo Internacional diz que a área de estudo até cresceu, de 3 542 para 3 978 hectares, e que o sistema de baterias passou de 1,9 para 2,4 hectares, com 288 contentores, sem avaliação específica do risco de incêndio nem quantificação da água de arrefecimento. É a leitura da plataforma; o número de contentores coincide com o do relatório do promotor.

Para os opositores, o problema seguinte é o prazo: dez dias úteis de consulta para um dossier técnico extenso, contra os 30 dias da primeira fase. A diferença é o argumento central de quem pede uma nova avaliação, com prazos «adequados» e uma alternativa de localização.

O que o promotor promete

Do lado do promotor, a reformulação traz compromissos: 20 milhões de euros de investimento voluntário, até 45% de poupança na factura eléctrica numa segunda fase, plantação de árvores e um programa de benefícios partilhados. São declarações comerciais, sem auditoria. O folheto afirma ainda que o projecto vale «cerca de 4%» dos 11 400 MW em falta — a aritmética do próprio folheto dá 5%.

As datas até 2031

Nada disto está decidido. Segundo o calendário indicativo do promotor, a decisão ambiental chega no 1.º trimestre de 2027; o projecto de execução, com nova consulta pública, no 3.º trimestre desse ano; a decisão de conformidade, no 4.º. As licenças de produção apontam a 2028, a construção a 2029 e a operação a 2031.

Até 21 de Outubro, quem quiser pronunciar-se pode fazê-lo no portal Participa.pt; o promotor disponibilizou também um exemplar em papel na Câmara de Penamacor. É o único momento formal de participação antes de a APA decidir.

O que fica por responder é maior do que o que já ficou decidido: quantos dos projectos solares em fila vão passar pelo mesmo processo, e se existe, no ordenamento do território português, resposta para a distância entre a energia que o país se comprometeu a produzir e o sítio onde ela cabe.

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