Quatro das maiores operadoras de telecomunicações da Europa assinaram esta segunda-feira uma carta de intenções para estudar uma candidatura conjunta ao espectro de serviços móveis por satélite (MSS) na banda dos 2 GHz. O documento não cria um consórcio, não tem valores nem compromissos financeiros e não escolhe satélite.
O objectivo declarado é duplo: garantir «uma posição autónoma da Europa» na infra-estrutura espacial e assegurar que todas as operadoras móveis tenham «acesso aberto e não discriminatório» para oferecer ligação directa entre satélite e telemóvel, o chamado D2D.
No terreno, as quatro comprometem-se a montar infra-estrutura terrestre e funções de coordenação e controlo na Europa, sem investirem directamente numa constelação. O satélite virá de um parceiro «ainda por seleccionar».
| Signatárias | Deutsche Telekom, Orange, Telefónica e Vodafone |
|---|---|
| Instrumento | carta de intenções, não uma candidatura |
| Banda em causa | 2 GHz, serviços móveis por satélite |
| Serviço visado | ligação directa satélite-telemóvel (D2D) |
| Constelação | sem investimento directo; parceiro por escolher |
| Valores e calendário | não divulgados |
Porque é que isto é uma corrida
As licenças actuais de MSS na banda dos 2 GHz expiram em 2027. A Comissão Europeia propôs a 27 de Maio um regulamento que substitui a decisão de 2008 e passa a fazer a selecção e a autorização ao nível da União, em vez de país a país. O processo está agora no Parlamento e no Conselho.
É esse calendário que dá sentido à carta: quem entrar primeiro no procedimento europeu fica com acesso à banda e, através dela, à possibilidade de ligar telemóveis comuns a satélites fora das zonas com cobertura terrestre.
A parte portuguesa
Das quatro signatárias, só a Vodafone tem rede em Portugal. A Telefónica vendeu a operação portuguesa à Altice em 2015, a Orange não opera no país e a Deutsche Telekom também não. A MEO, a NOS e a DIGI não assinam nada.
Isso não deixa Portugal de fora: a decisão sobre a banda dos 2 GHz está a ser tomada ao nível da União, onde o país tem assento no Conselho. Mas o desenho da rede terrestre e a escolha do satélite não passam por Lisboa.
O que ainda não se sabe
Falta o essencial: quanto custa, quem concorre, que satélite serve a rede e em que prazo. As operadoras dizem apenas que a carta «não substitui parcerias de satélite existentes», ou seja, que ninguém está a romper com fornecedores actuais.
A Bloomberg titulou o movimento como uma tentativa de «travar a SpaceX» na ligação directa por satélite. As quatro empresas não usam essa linguagem: falam de soberania europeia e de governação do espaço. As duas leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
O próximo passo é legislativo, não comercial: o regulamento tem de passar pelo Parlamento e pelo Conselho antes de haver candidaturas. Até lá, a carta é uma intenção declarada e um recado a quem estiver a preparar a mesma banda.
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