Miguel Pinto Luz, de óculos de armação escura e camisola verde escura sobre camisa branca, a falar com a mão direita aberta em gesto, num interior com vidros e plantas ao fundo.

Web Summit / Wikimedia Commons — CC BY 2.0 (Lisboa, 2019, quando era vice-presidente da Câmara de Cascais; imagem de arquivo)

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Pinto Luz culpa a Anacom e quer renovar espectro com investimento

O ministro das Infraestruturas e Habitação diz que decisões da Anacom prejudicaram o investimento das operadoras e a qualidade das redes, e defende que o regulador mude de rumo na renovação das licenças de espectro que caducam em 2027.

Em entrevista ao Expresso divulgada esta segunda-feira, Miguel Pinto Luz aponta o dedo à entrada de um novo operador: «Aqui culpo a decisão da Anacom de criar um novo operador que esmagou ainda mais as margens de todo o setor e impediu os de fazer novos investimentos», disse, acrescentando que «tanto no apagão como nas intempéries, o desinvestimento estava lá».

«A posição do Governo é clara: convidar a Anacom a desenhar um plano para ampliar e dar previsibilidade e perenidade das licenças de espectro e, em contrapartida, pedir investimento. A Anacom não tem bem esta leitura.» — Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação

O que a Anacom decidiu

A 29 de Junho, o regulador aprovou o sentido provável de decisão sobre a renovação dos direitos da MEO, da NOS e da Vodafone: renova tudo, mas por prazos diferentes — 800, 1800 e 2100 MHz até 2041/2042, 2600 MHz apenas até 2033. As operadoras pediam 20 anos e não os tiveram.

Direitos em causa800, 1800 e 2600 MHz da MEO, NOS e Vodafone
Caducidade das licenças9 de Março de 2027
Valor do espectro na opção da Anacom550,3 M€ a preços de 2027
Valor se a renovação fosse por 20 anos735,4 M€
Taxa de renovaçãopor definir em lei ou portaria
Decisão finalainda não publicada

O documento deixou uma porta aberta: se as operadoras apresentarem compromissos detalhados de investimento, sobretudo em segurança e resiliência das redes, a Anacom admite reponderar os prazos.

O regulador decide os prazos, o Governo decide o preço — e um ministro acaba de dizer publicamente que o regulador errou. A taxa de renovação, que ainda não existe na lei, é a alavanca que o executivo tem à mão.

Quem manda no espectro

A decisão sobre os prazos de renovação é da Anacom, que a Lei das Comunicações Electrónicas designa como autoridade reguladora nacional. Mas a renovação não é gratuita: o artigo 168.º da mesma lei impõe o pagamento de uma taxa que não está densificada na lei nem na portaria de taxas em vigor.

Não sendo competência do regulador fixá-la, a Anacom enviou ao Ministério das Infraestruturas uma proposta legislativa para a definir. É nesse ponto — a taxa — que o Governo tem competência directa. Nos prazos, a competência é do regulador, e o «convite» do ministro é, para já, um pedido público.

A conta de quem paga

A «decisão de criar um novo operador» a que o ministro se refere é a entrada da DIGI. A Anacom considerou em Setembro de 2024 que a compra da Nowo não criava entraves à concorrência e aprovou depois a passagem do espectro da Nowo para a DIGI, em Dezembro de 2024 e Janeiro de 2025.

Do lado das operadoras instaladas, o sentido provável de decisão foi recebido como «uma decisão errada e profundamente prejudicial para Portugal», nas palavras da APRITEL, que representa a MEO, a NOS e a Vodafone. Na semana passada, o presidente executivo da Vodafone Portugal, Luís Lopes, avisou que a regulação está a empurrar o sector «para um caminho muito complicado».

Do outro lado, encurtar prazos foi a forma de a Anacom manter aberta a porta a um novo entrante e de guardar margem de intervenção para o 6G no início da década de 2030. É esta tensão que o ministro quer resolver com mais previsibilidade e, em troca, compromissos de investimento.

Falta saber o que o regulador responde ao «convite» e quanto vai custar a renovação. Até essas duas respostas existirem, a decisão final de 2026 continua em aberto — e a fatura, que ninguém ainda pode calcular, também.

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