Puzzle a formar coração que simboliza a esperança na recuperação da demência e Alzheimer
🔬 Ciência

Fármaco de cobre limpa Alzheimer e recupera memória

Um composto à base de cobre reparou as bombas de limpeza do cérebro, reduziu a acumulação de proteínas tóxicas em 42% e recuperou a memória espacial em 44% em modelos laboratoriais da doença de Alzheimer. O melhor: o fármaco Cu(ATSM) já foi testado em humanos para Parkinson e ALS, o que pode acelerar o caminho até aos doentes.

Renderização cerebral com rede neuronal

A doença de Alzheimer caracteriza-se pela acumulação de proteína amiloide no cérebro. O Cu(ATSM) repara as bombas que removem estes resíduos.

O que é o Cu(ATSM)?

Cu(ATSM) é um composto que transporta cobre para o cérebro com propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Durante anos, tem sido estudado para doenças neurodegenerativas como Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ALS), tendo já completado fases de segurança clínica em humanos.

Agora, uma equipa da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália, publicou na revista ACS Chemical Neuroscience (DOI: 10.1021/acschemneuro.6c00252) a primeira demonstração de que o composto pode combater a causa direta do Alzheimer: a acumulação de proteína beta-amiloide.

Este é o primeiro estudo a mostrar que o Cu(ATSM) pode aumentar a abundância das bombas de limpeza P-gp num modelo de Alzheimer em 24,1%, ligando a reparação da barreira hematoencefálica à redução de proteínas tóxicas e à melhoria cognitiva.

— Dr. Jae Pyun

Como funciona

No cérebro saudável, proteínas tóxicas são removidas através da barreira hematoencefálica por bombas especializadas chamadas P-glicoproteína (P-gp). Nos doentes de Alzheimer, estas bombas perdem eficácia, os resíduos acumulam-se e formam as placas amiloides características da doença.

O Cu(ATSM) aumenta a quantidade destas bombas em 24,1%, restaurando a capacidade do cérebro de se limpar. Ao longo de 56 dias de tratamento, a equipa registou uma redução de 42% da proteína beta-amiloide tóxica e uma melhoria de 44% na aprendizagem espacial e memória.

Estrutura molecular 3D que simboliza compostos farmacêuticos

O Cu(ATSM) é um composto que transporta cobre — um metal essencial à função cerebral — através da barreira hematoencefálica.

Vantagem: já está testado em humanos

A grande vantagem deste composto é que já percorreu parte do caminho regulatório. O professor Joseph Nicolazzo, diretor do Centro de Otimização de Candidatos a Fármacos e autor sénior do estudo, sublinha que «o Cu(ATSM) é um composto de cobre com propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras que já progrediu para testes clínicos em condições como Parkinson e ALS».

Isto significa que o Cu(ATSM) pode saltar fases iniciais de segurança e entrar diretamente em ensaios de eficácia para Alzheimer — um processo que normalmente leva anos.

O peso do Alzheimer em Portugal

Em Portugal, estima-se que quase 200 mil pessoas vivam com demência, sendo a doença de Alzheimer responsável por 60 a 70% dos casos — entre 120 a 140 mil portugueses. O país ocupa o 4.º lugar entre os países da OCDE com maior prevalência de demência por mil habitantes (19,9 casos por 1000, contra uma média de 14,8 na OCDE).

A demência é a 5.ª causa de morte em Portugal, e com o envelhecimento acelerado da população — Portugal é o 4.º país mais envelhecido do mundo — o número de casos continuará a crescer. O impacto no Serviço Nacional de Saúde e nas famílias é avassalador: a maioria dos cuidados é prestada em casa por familiares, muitos dos quais abandonam o mercado de trabalho.

Idosa em cadeira de rodas com cuidadora ao fundo

Em Portugal, a maioria dos cuidados a doentes de Alzheimer é prestada em casa por familiares. Um tratamento eficaz mudaria esta realidade.

O que falta para chegar aos doentes

Os investigadores estão ainda a mapear as rotas exatas pelas quais as proteínas saem do cérebro após a reparação da barreira. Suspeitam que o tratamento com cobre também potencie as micróglias — as células imunitárias do cérebro — para consumirem e degradarem as placas tóxicas.

Se os ensaios clínicos em humanos confirmarem os resultados, poderemos estar perante um dos avanços mais significativos das últimas décadas no tratamento da doença de Alzheimer.

Para os leitores Portugueses

Com uma das populações mais envelhecidas do mundo e quase 200 mil pessoas a viver com demência, Portugal está entre os países que mais beneficiariam de um tratamento acessível para o Alzheimer. O Cu(ATSM), por ser um composto relativamente simples e já testado em humanos, tem potencial para ser significativamente mais barato do que os anticorpos monoclonais atualmente em uso. Num SNS já pressionado, a diferença não é apenas clínica: é orçamental.

Feito por humanos — Portugal Binário

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