A Câmara Municipal de Coruche aprovou o levantamento de ónus e encargos, avaliados em cerca de 180 mil euros, sobre um terreno no Parque Empresarial do Sorraia onde a Nextgen AIDC Coruche quer construir um centro de dados para inteligência artificial. A empresa anuncia um investimento de 220 milhões de euros, 6,4 megawatts e cerca de 30 postos de trabalho, com entrada em funcionamento prevista para o fim de 2027.
A proposta passou com os três votos do PS e a abstenção dos quatro vereadores da oposição — três do Movimento Volta Coruche e um do PSD —, segundo o relato da reunião publicado pelo Notícias do Sorraia. A dispensa equivale a 0,08% do investimento anunciado.
| Investimento anunciado | 220 M€ |
|---|---|
| Potência prevista | 6,4 MW |
| Postos de trabalho | cerca de 30 |
| Entrada em funcionamento | fim de 2027 |
| Capital social da empresa | 10 mil euros |
| Encargos municipais dispensados | ~180 mil euros |
| Votação | 3 a favor (PS), 4 abstenções |
A empresa que assina o anúncio
A sociedade constituída em Coruche é a Nextgen AIDC Coruche, Lda: 10 mil euros de capital social, constituída a 9 de Setembro de 2025, com o CAE 63100 (infra-estruturas de computação e processamento de dados) e sede na incubadora de empresas do município, no antigo quartel dos Bombeiros Municipais. Os registos comerciais consultados não mostram contas apresentadas.
O ECO atribui o projecto ao fundo Aura Capital, «através da Aura Technologies». Não foi possível confirmar em documento público a ligação entre essas designações e a sociedade de Coruche: procurámos comunicado da empresa, registo ou anúncio oficial e não encontrámos nenhum que una os dois nomes.
Dois nomes conhecidos do sector aparecem ligados ao projecto, segundo o ECO: Gabriel Coimbra, antigo director-geral da IDC Portugal, como vice-presidente para infra-estrutura de IA e estratégia, e o contra-almirante António Gameiro Marques, director-geral do Gabinete Nacional de Segurança entre 2016 e 2025, como administrador não executivo e conselheiro para segurança, resiliência e soberania. Ambos deverão deter participações.
O edifício da Câmara Municipal de Coruche, onde a proposta foi votada. A acta da reunião não pôde ser consultada: o sítio do município esteve inacessível durante a verificação.
O que a Câmara aprovou, e o que não se sabe
As descrições do benefício municipal não coincidem. O ECO, citando registos municipais, escreve que a Câmara aprovou a venda do lote de 7.209 metros quadrados por 135.246,80 euros e concedeu isenções de IMT e de IMI, além de um bónus de 40% ligado a objectivos de emprego local. O Notícias do Sorraia fala do levantamento de ónus e encargos de cerca de 180 mil euros. Sem a acta, não é possível saber se são dois instrumentos diferentes ou duas leituras do mesmo.
O presidente Nuno Azevedo (PS) e a vice-presidente Susana Cruz responderam à oposição que a empresa tem trabalhado com os serviços técnicos municipais, sobretudo na arquitectura e na preparação do projecto, e que esse trabalho mostra intenção de avançar. A oposição não ficou convencida.
O vereador Francisco Gaspar (PSD) invocou o precedente da Iki Mobile, a fábrica de telemóveis inaugurada em Coruche em Fevereiro de 2018 com um investimento de 1,6 milhões de euros e a promessa de 36 postos de trabalho, para alertar contra anúncios com grande aparência e poucas garantias. Osvaldo Ferreira (Movimento Volta Coruche) questionou porque é que um investimento de 220 milhões de euros depende de uma dispensa de 180 mil.
O financiamento ainda não está fechado
Segundo o ECO, cerca de 85% do investimento deverá vir de dívida e de financiamento garantido por activos, e os restantes 15% de capital próprio e instrumentos convertíveis subscritos pelo grupo, por parceiros e por family offices. A estrutura estaria acordada «em princípio», mas os acordos finais continuam pendentes.
O projecto prevê chips Nvidia Rubin e um modelo de venda de capacidade horária, orientado a empresas de biotecnologia e de saúde em vez dos grandes grupos de IA. A empresa planeia mais dois centros de dados em Portugal, de 12 e 16 megawatts, antes de se expandir para Espanha e para o sul de França.
Para dar ordem de grandeza ao anúncio: 220 milhões de euros por 6,4 megawatts dão cerca de 34 milhões por megawatt, um valor que só faz sentido se a maior parte do dinheiro for equipamento de computação e não o edifício. O ECO nota que a potência prevista é quase equiparável à do centro de dados da Covilhã.
O caso aparece a meio de um debate nacional sobre licenciamento. A 14 de Outubro, a Quercus pediu um travão aos novos centros de dados até existirem dados sobre consumos de água, energia e solo, tema que o Portugal Binário noticiou nesse dia. Coruche mostra a parte que raramente se vê: a decisão autárquica, os valores em causa e o que a empresa tem garantido.
O que se segue é verificável: licenciamento, contrato de financiamento e obra. Até esses três passos existirem, Coruche tem uma decisão municipal tomada e um anúncio de 220 milhões de euros — e a empresa tem até ao fim de 2027 para mostrar que o capital aparece.
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