O Município de Oeiras apresentou esta terça-feira os resultados do estudo PhonesOff, que inquiriu 3.427 alunos do 1.º ao 9.º ano em 30 escolas do concelho entre 19 de Março e 8 de Maio. 62,9% dizem estar mais atentos nas aulas e 59% referem maior vontade de participar.
A apresentação decorre no auditório da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, em Carnaxide, e inclui um debate entre o presidente da câmara, Isaltino Morais, e o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo. O município apresenta o trabalho como «o primeiro grande estudo de impacto em Portugal» sobre escolas sem smartphones.
O estudo foi promovido pela autarquia, com coordenação técnico-científica da Universidade de Aveiro — Filipa Brandão, Marlene Amorim e Raquel Castro Madureira — e apoio metodológico e operacional da Because Impacts. A amostra tem 1.505 alunos do 1.º ciclo, 809 do 2.º e 1.113 do 3.º; a idade média é 10,5 anos.
Nos intervalos, 74,4% dizem conversar mais com os colegas, 53% brincar livremente e 42,8% praticar desporto. Só 0,7% afirmam usar o telemóvel nesse período. O Índice de Bem-Estar Escolar do estudo ficou em 74,6, numa escala de 0 a 100.
| Alunos inquiridos | 3.427 |
|---|---|
| Escolas | 30, no concelho de Oeiras |
| Ciclos | 1.º (1.505), 2.º (809) e 3.º (1.113) |
| Idade média | 10,5 anos |
| Recolha | 19 de Março a 8 de Maio de 2026 |
| Coordenação técnico-científica | Universidade de Aveiro |
| Índice de Bem-Estar Escolar | 74,6 em 100 |
O que os números medem — e o que não medem
Os dados são declarações dos próprios alunos, recolhidas depois de as restrições estarem em vigor. Segundo a informação divulgada, é um inquérito de percepção: não apresenta resultados escolares comparados antes e depois, nem um grupo de comparação. Isso não invalida o que os alunos dizem sentir, mas limita o que se pode concluir sobre aprendizagem.
O caso das notas é o mais frágil: 71,2% dizem que melhoraram ou se mantiveram, uma resposta que junta duas situações diferentes e não permite concluir que houve melhoria dos resultados. Também não foi possível consultar o relatório completo esta terça-feira; os números conhecidos vêm da apresentação pública e dos materiais divulgados pela autarquia.
Quase todos têm telefone; poucos o levavam à escola
A posse do telemóvel cresce depressa com a idade: 28% no 1.º ano, 49,5% no 4.º, 74,4% no 5.º, 91% no 6.º e 98,4% no 9.º. No 1.º ciclo, 42,2% já têm aparelho próprio, mas apenas 3,9% dizem que o levavam para a escola antes das restrições.
Telemóveis guardados num compartimento numerado numa escola, na Tailândia. É o tipo de prática — recolher ou guardar os aparelhos durante o dia — que o estudo de Oeiras avaliou; a fotografia não é de uma escola portuguesa.
Crédito: Chainwit. — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
A ligação ao aparelho não desaparece com a proibição. 46,3% sentem falta do telemóvel pelo menos ocasionalmente, 14,5% ficam frequentemente zangados quando o retiram e 11,1% dizem sentir nervosismo ou preocupação sem acesso. O estudo descreve uma ligação emocional mais acentuada nas raparigas, sobretudo às redes sociais, mas ressalva que estes sinais não bastam para diagnosticar dependência.
A resistência aumenta a partir do 2.º ciclo e acentua-se no 5.º e no 6.º ano. Os alunos mais velhos aceitam menos a medida, consideram mais vezes que as regras não são aplicadas de forma igual e sentem que são menos ouvidos nas decisões sobre os telemóveis.
A lei chegou ao 3.º ciclo depois do estudo
Quando os questionários foram recolhidos, o regime nacional só vinculava o 1.º e o 2.º ciclos: o Decreto-Lei n.º 95/2025, de 14 de Agosto, restringiu o uso de equipamentos com acesso à Internet no espaço escolar até ao 6.º ano. As respostas do 3.º ciclo retratam, por isso, restrições decididas pelas próprias escolas, não uma obrigação legal uniforme.
O alargamento chegou a 3 de Setembro, com o Decreto-Lei n.º 176/2026, que entrou em vigor no dia seguinte e estende o regime aos 7.º, 8.º e 9.º anos. Os regulamentos internos das escolas têm de ser adaptados até 1 de Janeiro de 2027. Os dados de Oeiras são, assim, um retrato de como alunos do 3.º ciclo reagiram a regras locais antes de a lei nacional os abranger.
O estudo recomenda manter as restrições, mas também investir em literacia e bem-estar digital, adaptar as regras à idade, envolver os alunos nas decisões e alargar a avaliação ao ensino secundário. A autarquia não anunciou esta terça-feira se tenciona repetir o inquérito depois de a lei chegar ao 3.º ciclo.
Para já, fica uma medição com limites claros: uma percepção positiva nos anos mais novos, sinais de ligação ao aparelho que a proibição não resolve e uma resistência que cresce com a idade. O que falta saber — se o efeito se mantém, se muda com a lei nacional e o que acontece no secundário — não está nos números apresentados.
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