O CARGO, robô do INESC TEC, descarregou um contentor marítimo sem intervenção humana na Alfândega do Porto. A demonstração foi a 13 de Outubro, no fórum europeu de inteligência artificial, dados e robótica ADRF26, com o instituto a anunciar mais de 90 % de sucesso e cerca de 12 segundos por caixa.
A tarefa que o robô faz é das últimas da logística a resistir à automação. Dentro de um contentor, a temperatura pode chegar aos 50 °C no Verão, e as caixas que abastecem o retalho português continuam a ser tiradas à mão, muitas vezes de noite. Em 2023, 56,8 % das mercadorias que entraram em Portugal vieram por mar.
O que o robô é
O CARGO junta uma base móvel omnidireccional — que anda em qualquer direcção —, um braço robótico, uma garra de sucção e visão RGB-D, que combina imagem e profundidade. O software, todo do INESC TEC, é modular e agnóstico ao hardware: serve outros equipamentos e reconhece as caixas mesmo quando estão arrumadas de forma irregular.
A demonstração não foi só do robô. Segundo o instituto, um operador humano recolheu as caixas retiradas do contentor lado a lado com um humanoide — a colaboração entre pessoas e máquinas no mesmo espaço faz parte do que se quis mostrar.
De onde veio o problema
O caso de uso foi identificado pela Sonae MC, no âmbito da agenda PRODUTECH R3, financiada pelo PRR. Segundo o INESC TEC, a distribuidora descreveu a solução como a prova de que o que tinha visto em simulação funciona em ambiente real. É o retalho a dizer onde dói: na descarga do contentor.
Um reach stacker a movimentar contentores no porto de Leixões, em 2017: é a máquina que move a caixa inteira. O que vai lá dentro continua, na maioria dos casos, a sair à mão.
Crédito: TrainLearnGrow / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0
O que falta saber é o passo seguinte. Não há data para o CARGO entrar num armazém, nem cliente anunciado, nem preço, nem número de unidades previstas. A demonstração mostra que o sistema funciona num evento; a produção mede-se noutro sítio.
Os números são de quem os mediu
Os dois números que sustentam a notícia — mais de 90 % de sucesso e 12 segundos por caixa — são do INESC TEC, medidos na demonstração, e não uma auditoria independente. Também não foi divulgada a comparação com o tempo que um trabalhador leva a fazer a mesma tarefa.
A mesma semana, mais dois resultados
O evento mostrou ainda um drone de inventário desenvolvido na agenda DRIVOLUTION, que reuniu 38 parceiros e mais de 50 milhões de euros para a «Fábrica do Futuro» do sector automóvel. Lê etiquetas e códigos de barras, compara-os com o sistema de gestão do armazém e já foi testado em instalações da Volkswagen.
O navio de investigação «Mar Profundo», com 20 metros, quatro dias de autonomia e capacidade para 12 pessoas, ficou atracado junto à Alfândega durante o fórum. O INESC TEC apresenta-o como o primeiro navio português totalmente dedicado à investigação tecnológica, a operar até 60 milhas da costa.
Onde isto se mostrou
O ADRF26 juntou no Porto cerca de 500 participantes de mais de 30 países, com mais de 40 workshops e seis sessões plenárias. A organização é do INESC TEC e da ADRA, a associação europeia de inteligência artificial, dados e robótica, com apoio da Comissão Europeia.
| Robô | CARGO, do INESC TEC |
|---|---|
| Tarefa | descarregar mercadorias de contentores marítimos |
| Resultados declarados | mais de 90 % de sucesso, cerca de 12 segundos por caixa |
| Demonstração | 13 de Outubro, stand do INESC TEC, ADRF26, Alfândega do Porto |
| Caso de uso | Sonae MC |
| Financiamento | agenda PRODUTECH R3 do PRR |
| Drone de inventário | agenda DRIVOLUTION, 38 parceiros, mais de 50 milhões de euros, testado em instalações da Volkswagen |
| Anúncio do instituto | 8 de Outubro de 2026 |
Fica a pergunta que o robô não responde sozinho: se a tarefa mais dura do armazém passa para uma máquina, quantos postos mudam e para que funções. O INESC TEC diz que a promessa é a supervisão. O próximo teste não é outro palco — é um armazém a sério.
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