Fachada do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, à noite: edifício comprido e iluminado, uma seta azul luminosa sobre um sinal de trânsito com a indicação «EXCEPTO VIATURAS DE EMERGÊNCIA», um carro branco parado junto à entrada e uma viatura da PSP ao fundo.

Draceane / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0 (fotografia de 2016, imagem de arquivo)

🏥 Saúde

O SNS ficou sem sistemas: receitas, processos e SNS24 em baixo

Os sistemas centrais do Serviço Nacional de Saúde falharam na manhã desta segunda-feira, 19 de Outubro, e deixaram médicos e enfermeiros de unidades de todo o país sem prescrição eletrónica, sem acesso ao processo clínico e sem serviços digitais que já são rotina — da vacinação à marcação de exames.

A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) confirmou à SIC que a falha afecta a maioria das unidades de saúde do país; os Institutos Portugueses de Oncologia (IPO) são a excepção conhecida. À agência Lusa, a vice-presidente Joana Bordalo e Sá descreveu a situação às 10h30: a Prescrição Eletrónica Médica (PEM) estava «completamente em baixo» e não era possível passar «uma única receita».

«Estou em consulta neste momento e tenho a consulta toda atrasada por não estar a conseguir passar as receitas que os meus doentes precisam.» — Joana Bordalo e Sá, vice-presidente da FNAM

O que está em baixo

O Registo de Saúde Eletrónico (RSE), que dá acesso aos dados clínicos dos utentes, também estava indisponível. A mensagem que os médicos encontravam era «Não está ligado», segundo imagens divulgadas pela FNAM. Na aplicação SNS24 surgiam erros e o aviso de que o serviço de receitas estava temporariamente indisponível.

PEM (Prescrição Eletrónica Médica)«Completamente em baixo»; médicos sem conseguir passar receitas (FNAM)
RSE (Registo de Saúde Eletrónico)indisponível; sem acesso ao processo clínico do doente (FNAM)
SNS24 (aplicação e portal)erros; serviço de receitas indisponível (SIC)
Unidades afectadasmaioria das unidades do país; IPO sem afectação conhecida (SIC/FNAM)
Causanão explicada oficialmente até ao fecho desta edição

A falha começou por volta das 10h00. A Lusa contactou os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), a entidade que gere as tecnologias de informação do SNS, às 10h45. Até ao fecho desta edição não havia resposta pública da SPMS nem explicação do Ministério da Saúde.

O que os médicos não conseguem fazer

Sem PEM não há receita: as farmácias não conseguem validar a dispensa. Sem RSE não há historial — antecedentes, medicação habitual, alergias, resultados de análises. É a diferença entre uma consulta e uma consulta às cegas, e é isso que está a acontecer em consultas marcadas há semanas.

A FNAM diz que o problema «repete-se com frequência». O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) foi mais longe no seu comunicado: fala de falha total nos cuidados de saúde primários, de constrangimentos na emissão de Certificados de Incapacidade Temporária (CIT) e de impacto também no sector privado e nas regiões autónomas.

«Sem sistemas informáticos operacionais, os médicos ficam privados de instrumentos indispensáveis à segurança clínica.» — Sindicato Independente dos Médicos

O que ainda não se sabe

Ao início da tarde não havia explicação oficial para a origem da falha, número de unidades afectadas nem previsão de reposição. Também não havia qualquer confirmação de um ciberataque. Sem comunicado da entidade responsável, essa hipótese não é facto e este artigo não a apresenta como tal.

O episódio não é isolado na semana. No sábado, os SPMS admitiram constrangimentos no VACINAS 2.0, atribuídos à «elevada pressão» do arranque da campanha sazonal. É outra plataforma e outro problema, mas a mesma dependência de um conjunto pequeno de serviços centrais — e a mesma dificuldade em saber, de fora, o que está a falhar e porquê.

Uma falha de software no sítio errado não é um incómodo: é a receita que não sai, a vacina que não fica registada e a consulta que se faz sem historial.

O que se sabe ao início da tarde é isto: os sistemas centrais caíram, os profissionais ficaram sem o essencial e a entidade responsável ainda não disse porquê. Quando houver explicação oficial, terá de responder a três perguntas — o que falhou, quantas unidades foram afectadas e o que impede a repetição.

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