A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto tem, a partir desta quarta-feira, 21 de Outubro, um novo Laboratório de Biomarcadores — o Biomarkers 360 — no piso 5 do Centro de Investigação Médica da U.Porto.
A plataforma foi financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência com cerca de 2,1 milhões de euros, segundo a Universidade do Porto, e a cerimónia de inauguração ficou marcada para as 11h00.
O que o laboratório acrescenta não é uma máquina, é equipamento novo a cinco: a folha informativa descreve cinco linhas de trabalho — imunoensaios de ultra-sensibilidade, sequenciação de nova geração, sequenciação de leitura longa, PCR e cultura celular, e histopatologia com imagem automática — que passam a conviver no piso 5 do mesmo edifício.
O que se mede a partir de uma amostra de sangue
O equipamento em destaque é uma plataforma de imunoensaios de ultra-sensibilidade com matrizes de molécula única, um Quanterix Simoa HD-X. É ela que deteta neurofilamentos leves, proteína tau fosforilada e beta-amiloide — os três marcadores que a U.Porto refere para acompanhar o efeito de um tratamento, sem exames de imagem. A mesma máquina aceita sangue, saliva, urina ou líquido cefalorraquidiano.
Que a medição substitua a imagem depende da doença, dos marcadores e da validação de cada teste: a Alzheimer's Association só admite que um teste sanguíneo substitua o PET de amiloide ou a análise do líquido cefalorraquidiano em cuidados especializados, com pelo menos 90 % de sensibilidade e especificidade, e avisa que a exactidão dos testes varia muito.
Do outro lado do mesmo piso há dois sequenciadores de nova geração, um MiSeq i100 Plus e um NextSeq 2000, para biópsia líquida: procurar células tumorais circulantes numa amostra de sangue, em vez de fazer uma biópsia do tecido.
A U.Porto apresenta a plataforma como alternativa à biópsia; o National Cancer Institute trata a biópsia líquida como complemento e, em certas situações, alternativa, e lembra que os testes ainda precisam de validação clínica.
Um terceiro sequenciador, de leitura longa, lê a metilação do ADN directamente, em tempo real, em vez de a obter de forma indirecta.
| Investimento na plataforma | cerca de 2,1 M€ do PRR, segundo a U.Porto |
|---|---|
| Projecto RISE-Health (UID/PRR/06397/2025) | 7 151 673,68 € |
| Valor pago registado no portal | 2,15 M€ |
| Início do projecto | 1 de Janeiro de 2025 |
| Fim declarado do projecto | 30 de Junho de 2026 |
| Localização | piso 5 do Centro de Investigação Médica, FMUP |
| Inauguração | 21 de Outubro de 2026, 11h00 |
| Painel de biomarcadores no sangue | duas a três horas, declarado pela U.Porto |
| Plataforma de imunoensaios | Quanterix Simoa HD-X |
| Sequenciadores de nova geração | Illumina MiSeq i100 Plus e NextSeq 2000 |
À volta dessas máquinas há o trabalho invisível: um extrator automático de ácidos nucleicos, um ultrassonicador para fragmentar o ADN, um robô que prepara bibliotecas de sequenciação, um sequenciador de Sanger com analisador de fragmentos, três sistemas de PCR e um UHPLC para cromatografia.
Há ainda uma sala de cultura celular, onde se desenvolvem organoides — mini-órgãos cultivados in vitro — e duas salas de histopatologia, com microarrays de tecidos, imunocoloração automática e um sistema de imagem espacial onde a U.Porto diz que se aplicam algoritmos de inteligência artificial à imagem do tecido.
As cinco linhas de trabalho que o Biomarkers 360 junta no piso 5 do Centro de Investigação Médica. Um pedido de análise percorre a linha correspondente: não é um percurso sequencial. Ilustração do Portugal Binário a partir da folha informativa da FMUP.
Crédito: Ilustração do Portugal Binário, a partir das fontes citadas
De onde vem o dinheiro — e o que ficou por esclarecer
O portal da transparência pública regista o projecto RISE-Health com 7 151 673,68 euros de financiamento, 2,15 milhões de euros já pagos, iniciado a 1 de Janeiro de 2025 e com conclusão declarada a 30 de Junho de 2026.
O mesmo projecto financia a modernização da unidade de saúde da U.Porto, de que este laboratório é uma peça. A repartição das verbas entre os equipamentos não é detalhada.
Uma data, porém, merece pergunta: o portal da transparência pública dá o projecto como concluído a 30 de Junho de 2026, e o laboratório foi inaugurado em Outubro. A data de fim do registo é administrativa; nem a folha da FMUP nem o comunicado da U.Porto dizem como é que a execução se distribuiu até à inauguração.
A RISE-Health nasceu da fusão do CINTESIS e do UnIC, na Faculdade de Medicina, do MedInUP, no ICBAS, e do CICS-UBI, na Universidade da Beira Interior. A ficha do projecto no portal da transparência pública regista 637 investigadores integrados na unidade, contra 450 antes da fusão.
A experiência anterior dos investigadores da RISE-Health mostra o que a investigação molecular permite: em Abril, uma equipa com participação da FMUP publicou no European Thyroid Journal um modelo molecular que estratifica o risco a longo prazo no cancro da tiroide de crianças e jovens adultos, a partir de 363 doentes.
É um trabalho anterior a este laboratório, de que os autores não dizem se usou este equipamento.
O que isto ainda não é
É uma plataforma de investigação. A folha da FMUP fala em apoio a projectos, ensaios clínicos e prática clínica, e Joana Marques, que coordena o laboratório com Rita Barros, diz esperar «uma repercussão prática na vida e na saúde das pessoas» — expectativa, não serviço.
Nem o comunicado nem a folha informativa publicam uma tabela de prazos, um catálogo de análises disponíveis ou a via de acesso a quem não é investigador da unidade. O tempo de duas a três horas é, para já, um número de instituição, não um prazo que um médico possa marcar.
O equipamento está instalado — a folha informativa lista-o sala a sala, no piso 5 do Centro de Investigação Médica — mas a execução financeira dos 2,1 milhões da plataforma não é detalhada nos documentos públicos.
Falta a parte difícil de um laboratório: encher a máquina de perguntas, tirar resultados que mudem a prática clínica e converter as duas ou três horas de painel num prazo em que se possa confiar.
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