Uma investigadora de luvas azuis e óculos de protecção segura um tubo de sangue contra a luz, numa bancada de laboratório

Imagem de arquivo: uma investigadora verifica uma amostra de sangue. Não é o laboratório da FMUP. Fotografia: National Eye Institute / Wikimedia Commons (CC BY 2.0), recorte.

🔬 Ciência

Porto: 2,1 milhões de euros para medir biomarcadores no sangue

A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto tem, a partir desta quarta-feira, 21 de Outubro, um novo Laboratório de Biomarcadores — o Biomarkers 360 — no piso 5 do Centro de Investigação Médica da U.Porto.

A plataforma foi financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência com cerca de 2,1 milhões de euros, segundo a Universidade do Porto, e a cerimónia de inauguração ficou marcada para as 11h00.

O que o laboratório acrescenta não é uma máquina, é equipamento novo a cinco: a folha informativa descreve cinco linhas de trabalho — imunoensaios de ultra-sensibilidade, sequenciação de nova geração, sequenciação de leitura longa, PCR e cultura celular, e histopatologia com imagem automática — que passam a conviver no piso 5 do mesmo edifício.

Medir sem imagear, segundo a U.Porto. O painel de biomarcadores neurológicos medido no sangue fica pronto em duas a três horas, «sem depender de exames de imagem, mais caros e exigentes em termos de disponibilidade e recursos». O que este laboratório ainda não é: um serviço de diagnóstico.

O que se mede a partir de uma amostra de sangue

O equipamento em destaque é uma plataforma de imunoensaios de ultra-sensibilidade com matrizes de molécula única, um Quanterix Simoa HD-X. É ela que deteta neurofilamentos leves, proteína tau fosforilada e beta-amiloide — os três marcadores que a U.Porto refere para acompanhar o efeito de um tratamento, sem exames de imagem. A mesma máquina aceita sangue, saliva, urina ou líquido cefalorraquidiano.

Que a medição substitua a imagem depende da doença, dos marcadores e da validação de cada teste: a Alzheimer's Association só admite que um teste sanguíneo substitua o PET de amiloide ou a análise do líquido cefalorraquidiano em cuidados especializados, com pelo menos 90 % de sensibilidade e especificidade, e avisa que a exactidão dos testes varia muito.

Do outro lado do mesmo piso há dois sequenciadores de nova geração, um MiSeq i100 Plus e um NextSeq 2000, para biópsia líquida: procurar células tumorais circulantes numa amostra de sangue, em vez de fazer uma biópsia do tecido.

A U.Porto apresenta a plataforma como alternativa à biópsia; o National Cancer Institute trata a biópsia líquida como complemento e, em certas situações, alternativa, e lembra que os testes ainda precisam de validação clínica.

Um terceiro sequenciador, de leitura longa, lê a metilação do ADN directamente, em tempo real, em vez de a obter de forma indirecta.

Investimento na plataformacerca de 2,1 M€ do PRR, segundo a U.Porto
Projecto RISE-Health (UID/PRR/06397/2025)7 151 673,68 €
Valor pago registado no portal2,15 M€
Início do projecto1 de Janeiro de 2025
Fim declarado do projecto30 de Junho de 2026
Localizaçãopiso 5 do Centro de Investigação Médica, FMUP
Inauguração21 de Outubro de 2026, 11h00
Painel de biomarcadores no sangueduas a três horas, declarado pela U.Porto
Plataforma de imunoensaiosQuanterix Simoa HD-X
Sequenciadores de nova geraçãoIllumina MiSeq i100 Plus e NextSeq 2000

À volta dessas máquinas há o trabalho invisível: um extrator automático de ácidos nucleicos, um ultrassonicador para fragmentar o ADN, um robô que prepara bibliotecas de sequenciação, um sequenciador de Sanger com analisador de fragmentos, três sistemas de PCR e um UHPLC para cromatografia.

Há ainda uma sala de cultura celular, onde se desenvolvem organoides — mini-órgãos cultivados in vitro — e duas salas de histopatologia, com microarrays de tecidos, imunocoloração automática e um sistema de imagem espacial onde a U.Porto diz que se aplicam algoritmos de inteligência artificial à imagem do tecido.

Diagrama das cinco linhas de trabalho do laboratório, lado a lado no mesmo piso: imunoensaios de molécula única, sequenciação de nova geração, sequenciação de leitura longa, PCR e cultura celular, e histopatologia com IA

As cinco linhas de trabalho que o Biomarkers 360 junta no piso 5 do Centro de Investigação Médica. Um pedido de análise percorre a linha correspondente: não é um percurso sequencial. Ilustração do Portugal Binário a partir da folha informativa da FMUP.

Crédito: Ilustração do Portugal Binário, a partir das fontes citadas

De onde vem o dinheiro — e o que ficou por esclarecer

O portal da transparência pública regista o projecto RISE-Health com 7 151 673,68 euros de financiamento, 2,15 milhões de euros já pagos, iniciado a 1 de Janeiro de 2025 e com conclusão declarada a 30 de Junho de 2026.

O mesmo projecto financia a modernização da unidade de saúde da U.Porto, de que este laboratório é uma peça. A repartição das verbas entre os equipamentos não é detalhada.

Uma data, porém, merece pergunta: o portal da transparência pública dá o projecto como concluído a 30 de Junho de 2026, e o laboratório foi inaugurado em Outubro. A data de fim do registo é administrativa; nem a folha da FMUP nem o comunicado da U.Porto dizem como é que a execução se distribuiu até à inauguração.

A RISE-Health nasceu da fusão do CINTESIS e do UnIC, na Faculdade de Medicina, do MedInUP, no ICBAS, e do CICS-UBI, na Universidade da Beira Interior. A ficha do projecto no portal da transparência pública regista 637 investigadores integrados na unidade, contra 450 antes da fusão.

A experiência anterior dos investigadores da RISE-Health mostra o que a investigação molecular permite: em Abril, uma equipa com participação da FMUP publicou no European Thyroid Journal um modelo molecular que estratifica o risco a longo prazo no cancro da tiroide de crianças e jovens adultos, a partir de 363 doentes.

É um trabalho anterior a este laboratório, de que os autores não dizem se usou este equipamento.

O que isto ainda não é

É uma plataforma de investigação. A folha da FMUP fala em apoio a projectos, ensaios clínicos e prática clínica, e Joana Marques, que coordena o laboratório com Rita Barros, diz esperar «uma repercussão prática na vida e na saúde das pessoas» — expectativa, não serviço.

Nem o comunicado nem a folha informativa publicam uma tabela de prazos, um catálogo de análises disponíveis ou a via de acesso a quem não é investigador da unidade. O tempo de duas a três horas é, para já, um número de instituição, não um prazo que um médico possa marcar.

O equipamento está instalado — a folha informativa lista-o sala a sala, no piso 5 do Centro de Investigação Médica — mas a execução financeira dos 2,1 milhões da plataforma não é detalhada nos documentos públicos.

Falta a parte difícil de um laboratório: encher a máquina de perguntas, tirar resultados que mudem a prática clínica e converter as duas ou três horas de painel num prazo em que se possa confiar.

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