Há dias que começam como um passeio de domingo pelos Alpes e acabam como cena de filme — com final feliz, coisa rara em Hollywood. No dia 23 de maio, uma parapentista de 44 anos descolou do Schmittenhöhe em direção a Piesendorf, na Áustria. Levava uma câmara no capacete. Às 13h15, sobre a Pinzgauer Hütte, a cerca de 2000 metros de altitude, um Cessna 172 aproximou-se por detrás. A hélice embateu na vela e rasgou-a por completo. A mulher começou a cair em espiral.
A tecnologia dos parapentes modernos
Um parapente não é um paraquedas — é uma asa flexível do tipo ram-air (parafoil), composta por dezenas de células infladas pelo ar à medida que avança. O piloto voa, não cai. A vela é fabricada em ripstop nylon de alta resistência, com suspensões de Kevlar/Dyneema — cada linha suporta até 200 kg. Pesa entre 4 a 7 kg, tem 9 a 13 metros de envergadura, e voa entre 20 e 75 km/h. Não tem estrutura rígida: é o fluxo de ar que mantém a forma. Uma hélice de avião a 200 km/h desfaz isto em décimas de segundo.
Todo o parapentista leva um paraquedas de reserva num compartimento do arnês. É uma estrutura redonda ou semi-elíptica, com 7 a 10 metros de diâmetro, que abranda a descida para 4 a 6 metros por segundo. O acionamento é manual: puxa-se uma manete, abre-se o compartimento, e o paraquedas infla contra o vento. Pesa cerca de 1 kg e é inspecionado de 6 em 6 meses. As asas modernas têm certificação EN de A (segura) a D (performance), e a reserva é obrigatória em quase toda a Europa.
O vídeo que correu o mundo: câmara no capacete mostra o momento exato da colisão e a ativação do paraquedas de reserva (DAHBOO77).
O que diz a parapentista
O dia em que um Cessna 172 te tira do céu enquanto voas de parapente... Ainda não acredito que estou aqui sentada a escrever isto e que, tirando alguns hematomas feios e contusões por todo o lado, não aconteceu realmente nada de grave.
— Sabrina (sab_thi), nas redes sociais
A parapentista, identificada como Sabrina (@sab_thi no Instagram), publicou o vídeo horas depois. Escreveu que 23 de maio será sempre o seu "segundo aniversário". Disse que sofreu hematomas e contusões, mas "nada de grave realmente aconteceu". O vídeo mostra-a a trabalhar freneticamente para se libertar dos cabos da vela principal e ativar a reserva. Aterrou numa estrada florestal e foi resgatada pelo helicóptero da polícia "Libelle Oskar".
O Cessna 172 — o avião monomotor mais produzido da história, com mais de 44.000 unidades desde 1955.
O piloto do Cessna, 28 anos, do Tirol, disse à polícia que não conseguiu evitar a colisão — o parapente apareceu subitamente na sua trajetória. Manteve o controlo do aparelho e aterrou em segurança no aeroporto de Zell am See. O Cessna 172, conhecido por ser um dos aviões mais indulgentes da aviação geral, sofreu danos na hélice mas manteve-se estável.
Entre o milagre e a física
A probabilidade de sobreviver a uma colisão destas é extremamente baixa. A energia cinética de um Cessna a 200 km/h contra uma asa flexível de 5 kg é avassaladora. O que salvou Sabrina foram três fatores: (1) a hélice atingiu apenas a vela, não as linhas de suspensão nem o arnês — por centímetros; (2) o impacto não danificou o compartimento da reserva; (3) ela manteve a calma para executar o procedimento de emergência.
Do lado do piloto, não entrar em pânico foi a decisão certa. Manobras bruscas após uma colisão podem levar à perda de controlo. Manter o avião estabilizado e regressar ao aeroporto mais próximo foi o protocolo correto. Colisões entre parapentes e aeronaves são raras, mas não inéditas: em 2023 na Suíça (helicóptero, sobreviveu), em 2021 nos EUA (ultraleve, ambos sobreviveram). O que torna este caso especial é que tudo foi filmado do ponto de vista da vítima, e que o desfecho foi o melhor possível sem ser milagre: preparação, equipamento e sorte a jogar a favor.
Feito por humanos — Filipe Guerra
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