A MILAE é um sistema de voz que telefona a pessoas idosas em nome das câmaras municipais, conversa com elas e avisa os serviços de acção social quando deteta uma mudança. Foi distinguida a 29 de Setembro com o prémio Excellence in Data & AI 2026, na categoria Natural Language & Conversational AI — uma iniciativa da DSPA, a associação portuguesa de ciência de dados e IA, coorganizada pela GoingNext. O produto é da HoneCraft, empresa constituída este ano em Lisboa.
A função não é nova — falar com quem vive só — mas o meio é. A chamada parte do município, com a regularidade que a equipa de acção social definir, e não pede à pessoa mais do que atender: não há aplicação para instalar, internet ou equipamento novo. Quando a conversa revela algo fora do padrão, o alerta aparece num painel municipal e é um técnico que decide o que fazer.
São mais do que a empresa diz
A comunicação da HoneCraft assenta num número: 517 mil pessoas com 65 ou mais anos a viver sozinhas, citando os Censos de 2021. O recenseamento contou exactamente 517 146. Mas é uma fotografia de há quatro anos. Na série do INE compilada pela Pordata — outra metodologia, que não é directamente comparável com o recenseamento — o mesmo indicador passou de 499 300, em 2021, para 658 700, em 2025: quase 160 mil pessoas a mais em quatro anos, dentro da mesma série.
O total de agregados unipessoais, todas as idades, chegou a 1 181 700 em 2025. E o Estado já procura estas pessoas por outra via: a operação Censos Sénior 2026 da GNR arrancou a 1 de Outubro e corre até 15 de Novembro, para registar quem vive isolado ou em situação de vulnerabilidade. Em 2025, a Guarda sinalizou 43 074 idosos nessas condições.
| Pessoas com 65+ a viver sozinhas, 2025 (INE/Pordata) | 658 700 |
|---|---|
| Pessoas com 65+ a viver sozinhas, Censos 2021 | 517 146 |
| Agregados unipessoais, todas as idades, 2025 | 1 181 700 |
| Idosos sinalizados pela GNR em 2025 | 43 074 |
| Censos Sénior 2026 da GNR | 1 de Outubro a 15 de Novembro |
| Categoria premiada | Natural Language & Conversational AI, a 29 de Setembro |
O telefone é o único requisito
A escolha do canal explica o público. A MILAE dirige-se a quem os canais digitais não alcançam, e por isso não pede nada que essas pessoas não tenham já: uma linha telefónica e o gesto de atender. A empresa diz que foi essa a razão do desenho do produto — a tecnologia de acompanhamento social só serve se funcionar para quem não sabe usar tecnologia.
Um telefone fixo. A MILAE não pede aplicação, internet nem aparelho novo: o único requisito é atender o telefone que já está em casa. Fotografia de arquivo.
Crédito: Wilfredor — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O que a empresa diz que o sistema não faz
A HoneCraft é explícita nos limites: a MILAE não decide, não diagnostica e não acciona serviços de emergência, e quem actua é sempre o técnico de acção social do município. Diz ainda que a análise incide sobre o conteúdo da conversa e nunca sobre características da voz, e que a infra-estrutura está alojada em regiões da União Europeia, com encarregado de protecção de dados externo notificado à CNPD.
É aqui que se distingue da teleassistência, o instrumento que existe há anos em muitos concelhos: um aparelho em casa com botão de emergência, ligado a uma central disponível 24 horas, em regra gratuito para o utente e pago pela câmara — Sintra, Coimbra, Almada, Cascais e Odivelas são alguns exemplos. A MILAE não substitui esse botão nem promete socorro: propõe-se ocupar o intervalo entre contactos, que é onde ninguém sabe se está tudo bem.
O que ainda não está provado
Não foi possível identificar, em fontes públicas, um único município, IPSS ou misericórdia a usar a MILAE. O sítio da empresa afirma que «a MILAE está em serviço», mas não nomeia clientes. O painel mostrado na página do produto — 1 248 utentes, 15 freguesias, 512 chamadas num dia — é apresentado pela própria HoneCraft como demonstração: «dados de demonstração, sem qualquer informação de pessoas reais», com freguesias «de um município de exemplo». Números assim não são utilização real e não devem ser lidos como tal.
A notícia chegou à imprensa a 5 de Outubro em versões regionais: cada jornal recebeu o número do seu distrito — 45 996 em Setúbal, 25 224 em Faro, 10 343 na Madeira. São contagens do INE para o distrito, não clientes da empresa.
Um prémio com pares conhecidos
A distinção é atribuída este ano pela primeira vez, e a lista de vencedores ajuda a situá-la: na mesma cerimónia foram premiados os SPMS, os serviços partilhados do Ministério da Saúde, o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais, a E-REDES, a Fidelidade, o Millennium bcp e os CTT. Não é um concurso de projectos de laboratório; é um retrato do que organizações portuguesas estão a fazer com dados e IA.
Fica por responder a pergunta que qualquer câmara fará antes de assinar: quantas pessoas estão hoje a ser acompanhadas pela MILAE, e em que concelhos. A empresa diz que o produto está em serviço; a lista de quem o usa ainda não é pública.
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