Dois terços do custo de um chip de inteligência artificial já não estão no processador — estão na memória que o rodeia. A Epoch AI documentou que a memória HBM (High Bandwidth Memory) passou de 52% para 63% do custo total dos componentes dos aceleradores AI entre o início de 2024 e o final de 2025, ponderado por volume de produção dos quatro maiores designers mundiais — NVIDIA, AMD, Google e Amazon. Em valores absolutos, o gasto global só em HBM saltou de 12 mil milhões para 32 mil milhões de dólares num ano, um aumento de 166%.
A HBM é um tipo de memória empilhada em 3D, colocada ao lado do processador dentro do mesmo pacote, fornecendo centenas de GB/s de largura de banda para alimentar modelos de linguagem com centenas de milhares de milhões de parâmetros. A sua produção requer empilhamento vertical de dies, ligações através de silício (TSV) e substratos avançados — processos de alto custo e baixo rendimento, concentrados em apenas três fabricantes mundiais: Samsung, SK Hynix e Micron. A repartição exata de custos no final de 2025 era: 63% para a memória HBM, 15% para o empacotamento CoWoS, 13% para o die lógico do processador, 9% para componentes auxiliares. O processador, que muitos assumem ser o grosso da fatura, é o elemento mais barato do conjunto.
A SK Hynix já anunciou produção em massa de HBM4 para 2026, a Samsung comprometeu 20 mil milhões de dólares em infraestrutura de memória, e a Micron aponta HBM4E com a TSMC para 2027. A nova arquitetura Rubin da NVIDIA usará HBM4 com 12 a 16 camadas empilhadas, o que significa que a fatia da memória no custo total vai continuar a subir. A SemiAnalysis descreveu março de 2026 como o início de uma nova escassez de silício — desta vez não por falta de wafers, mas por constrangimento na memória HBM e no empacotamento CoWoS. A tendência não é conjuntural: é estrutural.
Módulo de memória fabricado pela SK Hynix — uma das três empresas que dominam o mercado global de HBM. Só em 2025, o mundo gastou 32 mil milhões de dólares em memória para chips AI.
E Portugal com isto?
Portugal ocupa a 23.ª posição entre 27 países da UE no European Innovation Scoreboard, na categoria de “Inovador Moderado”, com 83,5% da média europeia. No Government AI Readiness Index do Oxford Insights, está em 28.º lugar entre 195 países — com um score de 66 em 100. O pior sub-pilar, de longe, é a Capacidade de Computação: 11,67 em 100. É o indicador mais baixo de todo o índice para Portugal. Significa que o país não tem infraestrutura computacional própria para desenvolver ou operar modelos de IA à escala — nem centros de dados com aceleradores, nem produção de silício, nem investimento público em computação.
European Innovation Scoreboard 2024 — Portugal ocupa a 23.ª posição entre 27 estados-membros da UE, na categoria “Inovador Moderado”, com 83,5% da média europeia. Fonte: Comissão Europeia, Julho 2024.
A Coreia do Sul gasta 5,13% do PIB em I&D, a Alemanha 3,13%. Portugal investe 1,73%. As empresas nacionais gastam menos de 1% do volume de negócios em I&D. Portugal não produz silício, não produz aceleradores, não produz HBM — é consumidor líquido de tecnologia numa altura em que o custo dessa tecnologia está a disparar estruturalmente. O paradoxo é que o país tem serviços públicos digitais de topo (94,69 em 100 no mesmo índice de Oxford) — mas o digital do Estado é consumo de tecnologia, não produção.
Infraestrutura de servidores — Portugal regista apenas 11,67 em 100 no pilar “Capacidade de Computação” do AI Readiness Index, o pior indicador do país. É o mesmo que zero infraestrutura própria de computação AI.
Resultado
O preço de entrada na inteligência artificial está a subir, não a descer. Enquanto a Coreia do Sul, os EUA e a Alemanha correm para fabricar a próxima geração de memória HBM4, Portugal olha de fora — sem produção própria de silício, sem aceleradores AI à escala, sem investimento público em computação comparável aos seus pares europeus. O talento existe, o conhecimento existe. A pergunta que fica — e que nenhum dado responde — é: quanto tempo consegue um país cheio de talento competir quando o preço do hardware que não fabrica só faz subir?
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