Esquema em dois painéis: à esquerda, um browser e um servidor ligados por uma troca de chave ML-KEM-768 com X25519; à direita, um servidor de comando e um loader ligados por ML-KEM-1024

Ilustração do Portugal Binário. Esquema do mecanismo ML-KEM (NIST FIPS 203) e do canal de comando descrito no relatório da Kaspersky; não é uma imagem do software do grupo Lazarus.

🔒 Cibersegurança

Lazarus usa criptografia pós-quântica para proteger o canal do malware

O grupo Lazarus passou a proteger o canal por onde entrega o seu malware com a mesma criptografia que os navegadores já usam para proteger as conversas. A equipa da Kaspersky apresentou na semana passada, no Security Analyst Summit em Bali, a operação FlashHole: uma campanha de espionagem que usa o padrão pós-quântico ML-KEM nas comunicações com o servidor de comando.

O ML-KEM é o mecanismo de encapsulamento de chaves normalizado em Agosto de 2024 pelo NIST, o Instituto Nacional de Standards e Tecnologia norte-americano, na norma FIPS 203. Foi pensado para resistir a ataques de computadores quânticos: o NIST considera-o seguro «mesmo contra adversários que possuam um computador quântico» e define três conjuntos de parâmetros, de ML-KEM-512 a ML-KEM-1024.

É a mesma criptografia que protege as conversas do seu browser — com uma diferença: aqui protege o canal por onde o malware chega. E a porta de entrada foi o software de segurança que os bancos da Coreia do Sul obrigam a instalar.

A técnica é concreta. O loader LPEClient, uma ferramenta de longa data do Lazarus, recebe do servidor de comando um bloco de dados com quatro segmentos de 1 568 bytes, cada um com uma chave pública ML-KEM-1024. O loader tira dali quatro pares de chaves partilhadas, cifra os textos correspondentes com o algoritmo GOST e devolve-os, sempre pelo ClientHub.

Os segredos partilhados alimentam o Threefish, outro algoritmo de cifra, que decifra a resposta do servidor de comando: os parâmetros e um executável. Esse executável é a backdoor modular Cubridge, que o LPEClient carrega de forma reflectiva na memória do computador infectado, sem escrever ficheiro.

Porque é que um grupo de espionagem usa criptografia de 2024

A resposta é a mesma que levou os navegadores a adoptá-la: o «colher agora, decifrar depois». Tudo o que é interceptado hoje pode ser guardado e decifrado quando existirem computadores capazes de o fazer. A criptografia pós-quântica fecha essa porta — e, do lado do atacante, o canal de comando também fica fora do alcance de um adversário quântico.

Do lado de quem protege, a adopção já é real. O Chrome activou uma troca de chave pós-quântica híbrida para todos os clientes de computador em 2024 e, no Chrome 131, trocou o Kyber experimental pelo ML-KEM normalizado pelo NIST, mantendo o algoritmo clássico X25519 em paralelo.

A Kaspersky afirma que este não é um adoptante tardio: segundo o investigador Sojun Ryu, o uso de criptografia pós-quântica pelo grupo recua a pelo menos Setembro de 2024 — «mais de um ano antes desta divulgação». A empresa descreve a adopção como parte de uma mudança mais vasta no repertório do Lazarus, que traz inteligência artificial para as iscas.

CampanhaFlashHole, apresentada pela Kaspersky GReAT no Security Analyst Summit, em Bali (21 Out 2026)
Atribuiçãogrupo Lazarus (Coreia do Norte), com confiança média-alta; ligada à Operation SyncHole
Activa desdepelo menos Julho de 2025
Vítimas confirmadaspelo menos três organizações na Coreia do Sul (construção, software, equipamento de comunicações por cabo)
MecanismoML-KEM-1024 (NIST FIPS 203, publicado em 13 Ago 2024)
Troca de chavesquatro blocos de 1 568 bytes com chaves públicas; chaves de sessão cifradas com GOST; resposta decifrada com Threefish
FerramentasTouchHub e ClientHub (novas); TechHub, TouchShift, LPEClient e Cubridge (conhecidas)
Entradaspear-phishing, página de currículo falso em GitHub Pages, CrossWeb EX (INICSAFE), fsquirt.exe, shellcode
Canais de comandorepositórios privados no GitHub; Dropbox numa variante do ClientHub
Adopção pelo browserChrome 131, ML-KEM-768 com X25519 no TLS (Setembro de 2024)
Iscapágina com fotografia de suposto candidato gerada por IA
Rastreio do uso pelo grupopelo menos Setembro de 2024

A isca é um currículo falso. Os e-mails de phishing levavam a páginas de portefólio e currículo fabricadas individualmente para cada alvo, alojadas em GitHub Pages. Segundo a Kaspersky, uma das páginas continha uma fotografia de um suposto candidato gerada por inteligência artificial, e os investigadores consideram que a IA foi usada para adaptar os sites fraudulentos às vítimas.

Diagrama da cadeia da operação FlashHole em oito passos: isca por e-mail de phishing; código remoto em JavaScript; o software bancário obrigatório CrossWeb EX; shellcode em fsquirt.exe; o GitHub como canal de comando; a instalação de TouchHub, TouchShift e ClientHub; a troca de chaves pós-quântica ML-KEM-1024 com o servidor de comando; e a backdoor Cubridge carregada em memória

A cadeia reconstruída pela Kaspersky, do correio de phishing à backdoor em memória. O passo a vermelho é a troca de chaves pós-quânticas com o servidor de comando. Ilustração do Portugal Binário a partir do relatório da Kaspersky.

Crédito: Ilustração do Portugal Binário, a partir das fontes citadas

A porta de entrada: o software que os bancos obrigam a instalar

O passo mais incomum da cadeia não é a criptografia: é o CrossWeb EX, um plugin de segurança da sul-coreana INISAFE, exigido para aceder a sites bancários e governamentais. A Kaspersky admite que a entrada inicial possa ter sido uma vulnerabilidade desse software, e lembra que o grupo já abusou de produtos do mesmo fornecedor em 2021, 2022 e 2023.

Depois da entrada, a cadeia corre quase toda em memória. O binário legítimo do Windows fsquirt.exe é injectado com shellcode, que instala o TechHub — um programa que fala com os operadores através de repositórios privados no GitHub. Dali vêm o TouchHub e o TouchShift, que multiplicam o acesso, e o ClientHub, que entrega as cargas ao LPEClient.

O LPEClient serve para recolher: Junta o software de segurança instalado, as protecções do Windows e características do sistema, comprime e cifra tudo e envia aos atacantes. Uma variante do ClientHub usa o Dropbox para falar com os operadores. Para evitar detecção, o loader altera as protecções de memória e desactiva um ponto de monitorização usado pelas ferramentas de segurança.

O que isto diz a quem é tocado

A primeira lição é que software de segurança obrigatório é superfície de ataque. Um componente que o utilizador não escolheu, instalado para cumprir uma obrigação legal, com actualizações controladas por um fornecedor local — é um ponto de entrada com um vector que o utilizador não pode auditar.

A segunda é que a migração para criptografia pós-quântica deixou de ser um plano. O browser já usa o padrão. E quem chega primeiro a usar um primitivo não está a falar da moda: está a proteger — ou a esconder — o que passa por ele.

Há limites que convém manter. A análise, a atribuição e a contagem de vítimas são da Kaspersky, sem confirmação independente publicada; o número real de organizações atingidas é desconhecido e os investigadores suspeitam de mais do que três; e não foi identificada qualquer vítima portuguesa ou europeia nas fontes consultadas.

Em resumo

Fica um facto simples: o mesmo mecanismo de encapsulamento de chaves que o NIST padronizou em 2024 para proteger os nossos dados protege, desde pelo menos Setembro de 2024, o canal de comando de um actor de ameaças do Estado. A criptografia pós-quântica deixou de ser um movimento de laboratório — passou a ser infraestrutura, dos dois lados.

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