Dois painéis de imagens infravermelhas lado a lado: no da esquerda, um círculo verde «IRAS» no topo e um círculo branco «AKARI» em baixo, ligados por uma seta amarela marcada 47,4586 minutos de arco; no da direita, o mesmo campo no AKARI, mais granulado, com as mesmas marcações

Phan et al. 2025, PASA 42, e064 — CC BY 4.0. Figura 5: recortes IRAS (esquerda) e AKARI (direita) com as duas posições do candidato.

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Candidato ao Planeta 9: duas posições e nenhuma órbita

Um artigo publicado em 2025 voltou a circular nos últimos dias como possível primeira prova observacional do Planeta 9. Uma peça da BBC Sky at Night, de 5 de Outubro, anunciou «podemos ter encontrado a primeira prova directa de um nono planeta principal do sistema solar», e a 20 de Outubro o assunto voltou a ser discutido no r/Astronomy. O trabalho por trás da notícia, de Terry Long Phan e colegas, saiu na Publications of the Astronomical Society of Australia em 2025 e descreve um único par de detecções em dois levantamentos infravermelhos, o IRAS e o AKARI.

O que o estudo fez

Os dois satélites varreram o céu em infravermelho distante, o IRAS em 1983 e o AKARI entre 2006 e 2007 — 23 anos de intervalo. A equipa procurou fontes que tivessem mudado de posição pelo valor esperado para um planeta muito distante, cerca de 3 minutos de arco por ano, e comparou-as depois uma a uma nas imagens. De 13 pares de candidatos, sobrou um.

LevantamentosIRAS (1983) e AKARI (2006–2007)
Intervalo23 anos
Pares iniciais13
Candidatos após inspecção1
Separação entre as duas posições47,5 minutos de arco
Distância assumida na procura500–700 UA
Massa assumida na procura7–17 massas da Terra
Coordenadas IRAS2h22m58s, −48°30′45″
Estadoórbita indeterminada, seguimento necessário

A lógica do infravermelho é simples: a luz solar reflectida por um planeta distante cai com o inverso da quarta potência da distância, enquanto a radiação térmica emitida por ele cai apenas com o inverso do quadrado. A 500 ou 700 UA, um mundo do tamanho de Neptuno seria quase invisível na luz visível e ainda detectável no infravermelho — desde que exista, e desde que os instrumentos tenham sensibilidade para o separar do ruído de fundo.

Pressupostos que passaram a medições

É aqui que a cobertura e o artigo se separam. Os valores que circulam — 7 a 17 massas da Terra, 500 a 700 UA — não foram medidos: são o intervalo de hipóteses que a equipa usou para decidir o que procurar. A distância vem da separação angular entre as duas detecções, admitindo o movimento orbital esperado; a massa, do fluxo que um planeta dessa massa teria. O próprio resumo diz que o fluxo e o movimento foram estimados «assumindo» massa, distância e temperatura.

O que existe, observado, são duas posições e algumas medidas de fluxo. Com duas posições não se determina uma órbita — e é a órbita que diz se o objeto é um planeta do sistema solar, um asteróide, uma galáxia de fundo ou um artefacto instrumental. O artigo reconhece-o sem rodeios: «duas detecções do IRAS e do AKARI não são suficientes para determinar o movimento kepleriano do nosso candidato».

A distância e a massa são pressupostos da procura, não medições. Sem órbita, o que existe é uma coincidência de posições — não um planeta.

O que o próprio artigo diz sobre o candidato

A lista de ressalvas está toda no trabalho. O par foi escolhido porque a fonte do IRAS não aparece na mesma coordenada na imagem do AKARI e vice-versa, mas a legenda da Figura 5 diz que a fonte do AKARI «não é visível como fonte física real», por causa das características da lista usada, que inclui fontes móveis sem confirmação mensal. O fluxo a 65 micrómetros existe, mas é «significativamente mais fraco» do que os fluxos a 60 e 90 micrómetros, e o próprio artigo diz que a medida «pode ser pouco fiável».

O trabalho tem revisão por pares e não esconde nada disto: pede seguimento para medir o movimento e o fluxo em outras bandas. Sugere o DECam, no telescópio Blanco, no Chile, com cerca de uma hora de exposição para chegar a magnitude 26 — o limite previsto para o Planeta 9 em Brown e Batygin (2021) — e nota que são necessárias nove detecções para ligar uma órbita, não duas.

O que a divulgação acrescentou

A peça da Sky at Night é cautelosa no corpo do texto: diz que «é muito cedo» e que só «se» aquele par representar um objeto real «podemos ter acabado de obter a primeira evidência observacional». O título já não guarda a condição: afirma que «podemos ter encontrado a primeira prova directa». No Reddit, o texto que acompanha a imagem vai mais longe e acrescenta uma órbita retrógrada e uma massa «estreitada» para 7–14 massas da Terra. Nenhuma das duas coisas está no artigo — e a inclinação orbital, retrógrada ou não, não se pode extrair de duas posições.

Há ainda o contexto da hipótese. O Planeta 9 foi proposto para explicar o agrupamento de objetos distantes da cintura de Kuiper (Batygin e Brown, 2016), e a órbita preferida em 2021 tem 6,2 massas da Terra, semieixo maior de 380 UA, periélio de 300 UA e inclinação de 16°. A candidata de Phan e colegas é procurada a 500–700 UA, ou seja, na cauda mais distante dessa distribuição — e, sem órbita, ninguém pode afirmar que reproduz o agrupamento que motivou a hipótese.

Também não é o único candidato. Uma procura independente só com dados do AKARI, publicada também em 2025 por Chen e colegas, encontrou dois candidatos noutra zona do céu. Nenhum foi confirmado. Ou seja: existem hoje várias posições interessantes e zero planetas novos no sistema solar.

Isto não torna a procura inútil. Se existir um planeta de 7 a 17 massas da Terra a 500–700 UA, ele obrigaria a reescrever a história da formação do sistema solar, e o infravermelho é uma das poucas formas de o ver. O problema é de linguagem: um candidato não confirmado, com órbita indeterminada, não é uma descoberta — e a diferença não é semântica, é a diferença entre uma hipótese de trabalho e um facto.

O que pode resolver a questão está identificado: algumas noites de DECam, ou observações no infravermelho próximo e médio com o James Webb, ou, mais tarde, o Rubin. Até lá, a frase correcta é a do artigo: há um par de detecções que merece seguimento. Se daqui a uns meses a mesma posição aparecer num terceiro e num quarto ponto, com movimento consistente com uma órbita, então haverá notícia. Para já, há uma candidata.

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