Um artigo publicado em 2025 voltou a circular nos últimos dias como possível primeira prova observacional do Planeta 9. Uma peça da BBC Sky at Night, de 5 de Outubro, anunciou «podemos ter encontrado a primeira prova directa de um nono planeta principal do sistema solar», e a 20 de Outubro o assunto voltou a ser discutido no r/Astronomy. O trabalho por trás da notícia, de Terry Long Phan e colegas, saiu na Publications of the Astronomical Society of Australia em 2025 e descreve um único par de detecções em dois levantamentos infravermelhos, o IRAS e o AKARI.
O que o estudo fez
Os dois satélites varreram o céu em infravermelho distante, o IRAS em 1983 e o AKARI entre 2006 e 2007 — 23 anos de intervalo. A equipa procurou fontes que tivessem mudado de posição pelo valor esperado para um planeta muito distante, cerca de 3 minutos de arco por ano, e comparou-as depois uma a uma nas imagens. De 13 pares de candidatos, sobrou um.
| Levantamentos | IRAS (1983) e AKARI (2006–2007) |
|---|---|
| Intervalo | 23 anos |
| Pares iniciais | 13 |
| Candidatos após inspecção | 1 |
| Separação entre as duas posições | 47,5 minutos de arco |
| Distância assumida na procura | 500–700 UA |
| Massa assumida na procura | 7–17 massas da Terra |
| Coordenadas IRAS | 2h22m58s, −48°30′45″ |
| Estado | órbita indeterminada, seguimento necessário |
A lógica do infravermelho é simples: a luz solar reflectida por um planeta distante cai com o inverso da quarta potência da distância, enquanto a radiação térmica emitida por ele cai apenas com o inverso do quadrado. A 500 ou 700 UA, um mundo do tamanho de Neptuno seria quase invisível na luz visível e ainda detectável no infravermelho — desde que exista, e desde que os instrumentos tenham sensibilidade para o separar do ruído de fundo.
Pressupostos que passaram a medições
É aqui que a cobertura e o artigo se separam. Os valores que circulam — 7 a 17 massas da Terra, 500 a 700 UA — não foram medidos: são o intervalo de hipóteses que a equipa usou para decidir o que procurar. A distância vem da separação angular entre as duas detecções, admitindo o movimento orbital esperado; a massa, do fluxo que um planeta dessa massa teria. O próprio resumo diz que o fluxo e o movimento foram estimados «assumindo» massa, distância e temperatura.
O que existe, observado, são duas posições e algumas medidas de fluxo. Com duas posições não se determina uma órbita — e é a órbita que diz se o objeto é um planeta do sistema solar, um asteróide, uma galáxia de fundo ou um artefacto instrumental. O artigo reconhece-o sem rodeios: «duas detecções do IRAS e do AKARI não são suficientes para determinar o movimento kepleriano do nosso candidato».
O que o próprio artigo diz sobre o candidato
A lista de ressalvas está toda no trabalho. O par foi escolhido porque a fonte do IRAS não aparece na mesma coordenada na imagem do AKARI e vice-versa, mas a legenda da Figura 5 diz que a fonte do AKARI «não é visível como fonte física real», por causa das características da lista usada, que inclui fontes móveis sem confirmação mensal. O fluxo a 65 micrómetros existe, mas é «significativamente mais fraco» do que os fluxos a 60 e 90 micrómetros, e o próprio artigo diz que a medida «pode ser pouco fiável».
O trabalho tem revisão por pares e não esconde nada disto: pede seguimento para medir o movimento e o fluxo em outras bandas. Sugere o DECam, no telescópio Blanco, no Chile, com cerca de uma hora de exposição para chegar a magnitude 26 — o limite previsto para o Planeta 9 em Brown e Batygin (2021) — e nota que são necessárias nove detecções para ligar uma órbita, não duas.
O que a divulgação acrescentou
A peça da Sky at Night é cautelosa no corpo do texto: diz que «é muito cedo» e que só «se» aquele par representar um objeto real «podemos ter acabado de obter a primeira evidência observacional». O título já não guarda a condição: afirma que «podemos ter encontrado a primeira prova directa». No Reddit, o texto que acompanha a imagem vai mais longe e acrescenta uma órbita retrógrada e uma massa «estreitada» para 7–14 massas da Terra. Nenhuma das duas coisas está no artigo — e a inclinação orbital, retrógrada ou não, não se pode extrair de duas posições.
Há ainda o contexto da hipótese. O Planeta 9 foi proposto para explicar o agrupamento de objetos distantes da cintura de Kuiper (Batygin e Brown, 2016), e a órbita preferida em 2021 tem 6,2 massas da Terra, semieixo maior de 380 UA, periélio de 300 UA e inclinação de 16°. A candidata de Phan e colegas é procurada a 500–700 UA, ou seja, na cauda mais distante dessa distribuição — e, sem órbita, ninguém pode afirmar que reproduz o agrupamento que motivou a hipótese.
Também não é o único candidato. Uma procura independente só com dados do AKARI, publicada também em 2025 por Chen e colegas, encontrou dois candidatos noutra zona do céu. Nenhum foi confirmado. Ou seja: existem hoje várias posições interessantes e zero planetas novos no sistema solar.
Isto não torna a procura inútil. Se existir um planeta de 7 a 17 massas da Terra a 500–700 UA, ele obrigaria a reescrever a história da formação do sistema solar, e o infravermelho é uma das poucas formas de o ver. O problema é de linguagem: um candidato não confirmado, com órbita indeterminada, não é uma descoberta — e a diferença não é semântica, é a diferença entre uma hipótese de trabalho e um facto.
O que pode resolver a questão está identificado: algumas noites de DECam, ou observações no infravermelho próximo e médio com o James Webb, ou, mais tarde, o Rubin. Até lá, a frase correcta é a do artigo: há um par de detecções que merece seguimento. Se daqui a uns meses a mesma posição aparecer num terceiro e num quarto ponto, com movimento consistente com uma órbita, então haverá notícia. Para já, há uma candidata.
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